Texto: Marcos Salesse | Imagens: Com_Texto

Com 11 livros lançados, a escritora e performer carrega em sua história o peso de viver a sua verdade na arte.

“Nascida corumbaense e renascida em Cuiabá”, é assim que a escritora Maria Tereza Carracedo remonta o início da existência de Luciene Carvalho. Mas para a escritora, poetisa, bruxa e muitos outros adjetivos que fogem do extenso vocabulário que a língua portuguesa dispõe, este renascimento se dá por meio do oficio que carrega por toda sua existência, escrever.

“A minha poesia profissionalmente nasce aqui, eu nasço pessoa em Corumbá, mas eu renasço poeta, aqui em Cuiabá”, diz Luciene enquanto rememora o início da sua carreira.

Chegando ao seu 11° livro lançado, intitulado “Dona”, a escritora coleciona conquistas desde a sua primeira inserção profissional na poesia, como vencedora do Festival Livre de Arte e Música Popular (FLAMP) de 1993, o qual ajudou a construir durante a época em que atuava no Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

“Era tudo muito feito por nós, tudo muito menos do que se tem hoje, o humano era muito essencial já que nós não tínhamos tecnologia”, conta a escritora ao falar sobre sua passagem pela UFMT.

Além do seu último lançamento, a artista carrega em sua história mais duas obras de grande impacto na literatura mato-grossense, os livros “Insânia”, lançado em 2009, e “Ladra de Flores”, que floresceu apenas em 2012.

Outra face da artista ganha luz durante suas performances como declamadora, onde mistura elementos cênicos com a fluidez de sua poesia, presenteando o público com o que de mais íntimo existe dentro dos seus versos.

A POESIA É GEOGRAFIA, É CORUMBÁ, CUIABÁ E PANTANAL

“Eu choro como o Rio Paraguai enche e esvazia. Quando a lágrima sobe em mim, até a emoção que eu vivo vem entremeada da consciência do Rio Paraguai”.

– Luciene Carvalho durante entrevista

Em Corumbá, cidade apoiada pelo rio Paraguai, que anuncia o Pantanal para o mundo, também anunciou a chegada de Luciene Carvalho na poesia. Reza a lenda que foi nesta porção de terra, localizada em Mato Grosso do Sul, região de fronteira com a Bolívia, que a artista deu seus primeiros passos como escritora.

“Minha mãe, que já morreu, e minha irmã mais velha contavam que estavam fazendo uma peça de teatro para apresentar no centro espírita kardecista que minha mãe frequentava. Eram umas primas, filhas adotivas, filha do meu pai, elas estavam lá declamando aquela ‘coisinha’ e uma delas falou ‘Tia eu não quero, tô com vergonha’. Reza a lenda que eu puxei a barra do vestido da minha mãe e disse ‘eu sei, eu sei de todas’”, lembra.

Luciene declamando poema durante a XIII Jornada das Desigualdades Raciais na Educação Brasileira |Foto: Com_Texto

São por meio destas memórias do cotidiano pantaneiro que Luciene afirma não saber ao certo quando começou a vida na poesia. Entretanto, a artista carrega em si a certeza de que a arte da palavra é uma parte de sua existência entregue ao mundo.

“Eu não tenho memória na minha vida sem poesia, eu dava poesia para as visitas. Então minha mãe começou a me ensinar assim: para as visitas que chegava eu escutava ‘Lu vem dar poesia’”, conta.

Atualmente, quando escreve, a poetisa entende que sua consciência flui de um espaço “geoemocional”, que foi nutrido em Corumbá, lugar onde se fundou como pessoa, ou como a própria costuma dizer, como bicho do mato.

“A nutrição poética é corumbaense, a raiz, essa parte mais tubercular. Corumbá tem esse jogo, essa importância, essa distância ‘geoemocional’. Lá é longe para você chegar, lá é fronteiriço, e eu trago essas características. Mas Cuiabá é minha musa. Eu sou híbrida sim, mas Cuiabá é o cenário da expansão da poesia e onde eu me defini por escritora, poeta, como militância de profissionalização, na medida em que não existe profissionalização para a carreira de escritor.”

‘BICHO DO MATO’ NA VIDA, ‘DONA’ NA POESIA

"Sabia que sou poeta?
Não é festa,
É posição de vida.
Não é escolha,
É postura.
Sou folha
Que a vida empurra.
Na poesia sou burra,
Deus toma a decisão.
Quero avisar
De antemão:
Sou poeta até no avesso.
Meu poético processo
Dirige o meu coração."


- Trecho do poema "Diário da Rocinha: 6° dia" do livro "Insânia"

Assim como descreve em seus escritos, Luciene reconhece que quando cria se torna mais sociável e muito mais segura, já que neste momento toda sua característica dita pantaneira, fica guardada em sua memória afetiva.

“Eu me reconheço como bicho do mato. Eu reconheço que a parte mais social de mim é a poesia. Residindo nela, eu sou segura, eu sou tranquila, eu acho massa. Mas eu sou recolhida, e eu tenho essa característica até hoje”, diz a escritora.

Parte desta transformação artística se deu enquanto cursava Serviço Social na UFMT. Para a poetisa, passar pela Federal fez com que sua consciência política e social se aflorasse.

“A Universidade é muito maior do que você pode pensar sabe, na minha formação. E assim, foi ‘foda’ porque lapidou uma menina boba”, disse.

Durante uma das estrofes de sua vida poética, Luciene desenvolveu um quadro de Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), considerado um distúrbio psiquiátrico marcado pela alternância entre episódios de depressão e euforia. No desenrolar destes versos oscilantes, a autora diz que sentiu um chamado que a conduzia cada vez mais para o universo poético.

“Em 1987 eu já tinha tido um insight, durante a morte do Drummond (Carlos Drummond de Andrade), nesse momento eu senti um chamado. Sei te dizer que o fluxo poético era ‘fodido’, cara. O começo foi muito doloroso, porque era compulsão, entende? Eu precisava escrever tudo que doía, tudo o que não podia tudo que me entristecia, tudo”, descreve Luciene.

Enquanto estudava e vivia tempos de exílio em Ribeirão Preto, cidade do interior de São Paulo, a poetisa diz ter compreendido pela numerologia como sua poesia se assinava: com data, dia mês e ano, cidade, estação, lua e nome.

“Eu passei um ano e pouco em Ribeirão, num exílio que me deu muita territorialidade. As pessoas chamam de tempo, mas se você tem tempo e não tem espaço, não vira. Lá eu tinha tempo, espaço e território. Não conhecia ninguém, não estava estudando nada, aquele ócio foi o contrário, foi onde eu defini, por exemplo, pela numerologia o nome “Luciene Carvalho”. Aprendi como minha poesia se assinava com dia, mês, ano, cidade, estação, lua e meu nome. A minha poesia só se legitima quando ela tem isso, se não tiver isso, não é minha”, diz.

"Um dia disseram p'ra mim
Que era triste ser assim
Ser uma PMD
PMD? Eu dizia: Ave Maria!
Hoje em dia
Digo Sim!
Sim é resposta suave
Sou duas em uma
Sou ave
E sou mulher
Quem não quer
Destino assim?
Eu digo: Sim, sou bipolar!
O mundo é bipolar.
Sou uma louca serena"


- Luciene Carvalho | 30.05,2020 | Cuiabá | Lua Minguante | Outono (Trecho do poema Diário da Rocinha: 4° Dia)

CADEIRA 31, “É MINHA E DE TODO O POVO PRETO”

“Eu fiz pela minha mãe”

– Luciene Carvalho sobre entrar na Academia Mato Grossense de Letras

Para a história da literatura de Mato Grosso, a cadeira 31 da Academia Mato Grossense de Letras carrega a importância significativa de Luciene Carvalho, a primeira mulher negra a ocupar um espaço na imortalidade lírica do estado.

Segunda a escritora, entrar na Academia nunca foi um objetivo de sua vida, entretanto, o chamado foi aceito como forma de dar sentido na vida de sua maior paixão, sua mãe.

“Eu fiz para agradar a minha mãe, por ter sofrido com a vergonha de carregar a filha ‘noiada’, por ter passado a vergonha da filha adicta e bipolar. Eu queria pagar a fatura. Mas eu acho que os deuses da literatura queriam mais. E hoje eu estou como ferramenta de Deus, nem é para mim. E seja Deus essa coisa libertária maior que existe, essa força motriz. Meu Deus tem útero, meu Deus tem o feminino nele. Acho que eu entrei por Andreia, entrei por Azuila, entrei por Raul. Eu acho que mandei a melhor notícia para a minha família, para honrar meus irmãos”, afirma.

Quando pensa na representatividade que carrega ao ser a primeira mulher negra presente na Academia, Luciene concretiza a realidade de transformação de um povo que por séculos foi subalternizado. Para a artista, a cadeira 31 não é apenas sua, mas sim de todo povo preto.

“Só quem é preto sabe o que é ser preto, as pessoas falam, mas não sabem como é o cotidiano de carregar na pele. E se de alguma forma me foi colocada a cadeira 31. Essa cadeira é a maior cadeira que existe na Academia, porque essa cadeira é minha e de todos os pretos dessa cidade. Essa cadeira é de todos eles, não é só minha. Até porque eu vou fazer o que com uma cadeira?”

A artista participou da Feira de Livros organizada pelo Núcleo de Estudos de Pesquisas sobre Relações Raciais e Educação (Nepre) |Foto: Com_Texto

“Eu fiz para agradar a minha mãe, por ter sofrido com a vergonha de carregar a filha ‘noiada’, por ter passado a vergonha da filha adicta e bipolar. Eu queria pagar a fatura. Mas eu acho que os deuses da literatura queriam mais. E hoje eu estou como ferramenta de Deus, nem é para mim. E seja Deus essa coisa libertária maior que existe, essa força motriz. Meu Deus tem útero, meu Deus tem o feminino nele. Acho que eu entrei por Andreia, entrei por Azuila, entrei por Raul. Eu acho que mandei a melhor notícia para a minha família, para honrar meus irmãos”, afirma.

Quando pensa na representatividade que carrega ao ser a primeira mulher negra presente na Academia, Luciene concretiza a realidade de transformação de um povo que por séculos foi subalternizado. Para a artista, a cadeira 31 não é apenas sua, mas sim de todo povo preto.

“Só quem é preto sabe o que é ser preto, as pessoas falam, mas não sabem como é o cotidiano de carregar na pele. E se de alguma forma me foi colocada a cadeira 31. Essa cadeira é a maior cadeira que existe na Academia, porque essa cadeira é minha e de todos os pretos dessa cidade. Essa cadeira é de todos eles, não é só minha. Até porque eu vou fazer o que com uma cadeira?”

“…que alguém seja capaz
De parir uma nova aliança
Que deixe de fato como herançaUm mundo mais liberto
Pra quem é criança”
- Luciene Carvalho (Trecho do poema “Dos Heróis”)