“A paz é muito falsa. A paz é uma senhora que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida”.

Diante dos protestos que surgem no Brasil é inevitável não lembrar do conto “Da Paz”, de Marcelino Freire, interpretado por Naruna Costa. A atriz, que é uma mulher negra, parece ter a voz que permite dar vida às palavras do autor.

A interpretação é de 2013 e vai de encontro com algumas falas que vêm surgindo nas redes sobre movimentos sociais, sobretudo os de defesa da população negra, nas quais atribuem aos militantes negros brasileiros à pacificidade. Como se fosse possível ser pacífico quando nunca se teve paz.

No Brasil, um adolescente de 14 anos foi levado de casa, sem permissão dos pais e horas depois encontrado morto em um Instituto Médico Legal (IML), no Rio de Janeiro. Outro caso, dessa vez com proporções internacionais, foi o do assassinato de George Floyd, um homem negro morto asfixiado por um policial em Minneapolis, nos Estados unidos. Os dois casos denunciam a morte em massa da população negra em todo o mundo, de forma que independente de onde esteja o corpo negro é alvo.

No Brasil a história se repete, na qual negros e indígenas lutam diariamente por suas vidas, sem conhecer a paz, porque vivem em estado de guerra, em uma vida de resistência, que não permite a certeza de sair e voltar para casa vivo.

E neste contexto, de qual lado está a imprensa patronal quando os negros choram por seus familiares? Onde estão as instituições quando os povos originários deste país exigem o direito das terras que sempre foram suas? A palidez da paz é as custas do derramamento do sangue de quem? Qual a razão de transformar aquilo que nasce antirracista em antigoverno?

Não é em 2020 que começam as respostas às desigualdades, a luta contra o genocídio data do ínicio do próprio genocídio. E no caso do Brasil, desde quando se era uma colônia escravista até a atual “democracia liberal”. Aqui o povo segue reagindo e lutando contra engenhos, cabrestos, ditaduras e economias desiguais.

Não só em resposta ao autoritarismo que só enxergam agora, mas a toda uma estrutura de sociedade, estavam os negros e indígenas gritando. E do sofá da sala, muitos que agora cobram reação, se perguntavam “mas por que tão raivosos, para que gritar assim?”

Quem grita por resposta somente hoje, nunca esteve na luta ontem. Luta essa que Marielle Franco, João Pedro, Zezico Guajajara, George Floyd, entre tantos outros, enfrentaram com a vida. É preciso ir às ruas, sim, lutar e gritar por justiça, mas não como se outros já não tivessem lutado e gritado antes.