Seja na moda ou na dança, as expressões e os movimentos de Pedro Scarlett promovem uma ruptura com tudo aquilo que é considerado “normal”. Tendo a arte como seu principal espaço de criação, o artista coloca em pauta a necessidade de formar laços afetivos como forma de resistência.

Relevando suas paixões e inspirações, o produtor de moda conversou com o Com_Texto e o resultado você pode acompanhar abaixo: 

CT: Para a gente começar eu queria que você me dissesse quem é Pedro Scarlett e o que te move hoje?

PS: Eu sou Pedro Scarlett, tenho 21 anos, sou produtor de moda aqui no estado de Mato Grosso e hoje o que mais me move nesse sentido de produção são os meus amigos, que são grande fonte de inspiração, eles fazem com que eu continue produzindo e mostrando algo que as pessoas não costumam ver.

CT: Você considera que seus laços de amizade são um grande motor para a sua atuação, principalmente na área artística?

PS: Sim, principalmente dentro da arte. Todas as minhas amigas e amigos são artistas, então a maior representatividade que eu tenho é dentro do meu próprio coletivo. Como ultimamente tenho andado bastante nessa linha das amizades, considero elas a minha grande fonte de inspiração, seja nas redes sociais ou presencialmente, elas são as pessoas que mais me orgulham.

CT: Sei que você atua em várias frentes artísticas como a dança e a moda. Conta para a gente como foi o seu início na moda? Como você começou a pensar essa área como um caminho possível para você?

PS: Eu acho que a moda sempre esteve na minha vida e sempre fez parte de mim. Lembro quando via aqueles vídeos da MTV, quando a gente é criança, sabe, aí vem aquela primeira inspiração, mas acho que a minha primeira inspiração mesmo foi a minha mãe. Eu a via usando roupas impecáveis, salto alto e pude ver que aquilo era possível para mim também, então eu acabo tirando daí.

Então foi desde muito novo, porque eu ingressei no ramo artístico muito cedo. Com seis anos entrei para o teatro, e lá você já ficava naquela linha ‘e o figurino? de onde vem? como vai ser?’. Quando eu estava na escola, na primeira série, eles disseram para a gente construir o nosso próprio figurino, e daí eu já comecei a me interessar muito por esse ramo artístico, eu era bem detalhista tanto é que o meu figurino foi considerado um dos mais bem produzidos da cena, então a partir daí eu comecei a me enxergar.

CT: Você sente que a moda também é uma ferramenta de mostrar para o mundo a sua identidade?

PS: Sim, porque hoje em dia o que mais representa nossa identidade é a moda. Tudo o que a gente faz, tudo o que a gente produz é pensado na moda, mesmo entre artistas ou não artistas, a gente sempre identifica a pessoa pelo que ela é fisicamente, mas também pelo o que ela representa. Acho que a moda é sim uma identidade que cada um de nós temos e que vai evoluindo com o tempo.

CT: E como você descreve a sua identidade na moda?

PS: A minha identidade é uma daquelas de personalidade forte no sentido de chegar e marcar presença. Realmente essa é uma identidade que eu carrego comigo 24 horas por dia, é algo que fica marcado, é com ela que eu mostro quem realmente sou. Quando falam ‘Pedro Scarlett’ todo mundo já pensa nessa identidade, que é de ser uma pessoa totalmente afeminada, fora dos padrões e que pensa em sempre desconstruir.

Uma das coisas interessantes é que toda vez que vou me preparar para produzir alguma coisa, nunca penso o figurino primeiro, essa é sempre uma das últimas opções, o que é até contraditório falar, mas eu sempre penso no final. Sou aquela que aposta, se der certo deu e se não der, vai dar porque eu sou produtor de moda e vou desconstruir.

Ensaio do produtor de moda mao-grossense Pedro Scarlett | Foto: Arquivo Pessoal

CT: E falando de afetações, você acredita que suas vivências enquanto uma pessoa LGBTQI+ interferem nas suas produções artísticas?

PS: Total, até estava conversando com um amigo sobre o que a gente aprende na moda, que é o ‘bloqueio mental’. Então acaba que isso perpassa nossas vidas e nos desestabiliza, você começa a ter inseguranças, e por ser o que você é acaba não conseguindo sair na rua, muitas vezes por querer explorar tudo aquilo que você realmente é. Só de sair já é preciso pensar mil vezes sobre conseguir voltar para a casa e não correr certos riscos, que principalmente nós que estamos na linha de frente corremos.

Então acho que interfere muito, porque de fato o bloqueio vem e para tirar do nosso psicológico é bem difícil. Passamos por outras dificuldades também pois somos periféricas, então também existe essa questão que acaba sendo frustrante, você quer produzir algo diferente para que as pessoas possam ver e acaba não tendo sucesso com isso, por conta da falta de pessoas para te ajudar e estar ali com você.

CT: Quando falamos de moda em Mato Grosso, principalmente da moda que você produz que de alguma forma não é construída em cima dos padrões normativos, existem barreiras que dificultam o trabalho?

PS: Sim, tanto é que quando eu entrei para o meu curso de moda, eu era o único gay afeminado preto da sala, e isso me desmotiva muito porque queria enxergar os nosso naquele espaços, mas não tinham referências, era a gente sempre trabalhando duas vezes mais para encontrar referências e pessoas que se identificassem com a gente. E falando de Cuiabá e Mato Grosso, um dos principais problemas são de as pessoas não quererem colaborar porque você é uma pessoa diferente, que não está no padrão normativo e quer desconstruir. Então essas pessoas não se interessam pelo o que a gente faz, porque elas querem seguir o padrão, o que vende e o que dá mais lucro.

CT: Estamos no mês do orgulho, para alguns é um momento de comemoração e para outros um momento de pura reflexão. Com isso, gostaria de saber o que te faz sentir orgulho quando você olha para sua trajetória e para as pessoas que te cercam?

PS: Um dos meus maiores motivos de orgulho é olhar para trás e ver a pessoa que eu estou me tornando, uma pessoa que pode sempre acreditar nas possibilidades, que pode sempre mudar o contexto e trazer desconstruções. Tanto na produção quanto na dança sempre mostro a minha verdade, esse é um dos motivos que mais me orgulham.

Já nas pessoas que me cercam, o que me orgulha é saber da possibilidade dessas pessoas estarem sempre ali ajudando, te dando força, fazendo com que você persista naquilo que você quer, projetando um novo mundo para que a gente possa viver com mais segurança sendo quem nós somos.

CT: Para a gente encerrar, gostaria que você deixasse aqui indicações de pessoas que te inspiram na moda.

PS: Uma das minhas maiores referências aqui no Brasil é a Magá Moura (@magavilhas), uma influenciadora digital, negra e maravilhosa, que aborda tudo isso que eu estou construindo, sobre moda, mulher, feminismos e o que a moda tem sido nesses últimos anos. Temos também o Isaac Silva (@isaacsilva_br), que é um dos produtores de moda mais incríveis que eu já conheci na minha vida, sempre me apaixono pelos desfiles que ele vem fazendo. Cito a Bianca Dellafancy (@biancadellafancy), que é uma digital influencer e youtuber maravilhosa, ela vem sempre trazendo discursos maravilhosos para a gente que é LGBTQI+.

Aconselho também as pessoas procurarem a Nátaly Neri (@natalyneri) que foi uma das primeiras referências que eu tive contato no mundo da moda. Com ela você vai ouvir sobre moda consciente, empreendedorismo e também sobre esse ‘fast fashion’ que acontece no mundo da moda, ela sempre apresenta essas boas referências.

Aqui mesmo no estado, as pessoas que são grandes referências para mim são meus próprios amigos, sempre gosto de colocar isso em questão. Uma pessoa maravilhosa que eu pude conhecer e me tornar amiga é a Hend (@hend_real), ela é uma pessoa maravilhosa, tanto ela quanto a Sophie (@sophiemusic._) e a Luisa Lamar (@aluisalamar), todas elas são pessoas que me inspiram muito.

Do meu grupo tenho o Dan Close (@fodaseodan), que sempre levanta diálogos e abordagens super importantes. Temos também a Lupita Amorim (@lupiamorim), que é uma parceira incrível, digo que é a irmã que eu nunca tive. E para encerrar temos a Açuana Valquiria (@avalquiriaa), nossa Miss Cuiabá, ela tem me inspirado muito nos últimos tempos.

Assista o material audiovisual da entrevista, clicando aqui.