Nos últimos cinquenta anos a cidade de Cuiabá, capital do estado de Mato Grosso, apresentou um crescimento significativo. Depois da divisão do estado, ocasião que deu origem a Mato Grosso do Sul, a cidade conheceu novos horizontes em todas as direções. Com a chegada dos 300 anos da capital, no entanto, intensificou-se o debate sobre o que permaneceu sendo o limite da cidade por mais de dois séculos: O centro histórico.

Originária da exploração de ouro no Brasil colônia, Cuiabá teve no conhecido Beco do Candeeiro a sua primeira rua. Outras, como a Rua de Cima (atual Pedro Celestino), Rua do Meio (atual Ricardo Franco) e Rua de Baixo (atual Galdino Pimentel) demarcaram o início do desenvolvimento da cidade. Desde então a região foi palco de relações conflituosas.

Enquanto a população, majoritariamente negra, ocupava espaços como o Largo da Mandioca, morro do Rosário e da Luz, não muito distante a elite se abrigava nas proximidades do Palácio do Governo. Ali tinham acesso à Praça Alencastro, cujas grades só permitiam a entrada da alta sociedade. Nos dias de “Retreta” — como eram chamadas as atrações musicais performadas no coreto — a aglomeração em volta das grades da praça aumentava.

Os problemas estruturais também eram gritantes e durante um período, a falta de distribuição de energia elétrica era positiva para as populações marginalizadas que encontravam na noite a possibilidade de escapar aos olhos da lei segregadora. Já na década de 50, os cuiabanos entoavam “Cuiabá, Cuiabá, terra do Bom Jesus, de dia falta água e de noite falta luz”.

Apesar de tudo isso, os comércios da região central tiveram seus dias de glória. Até hoje se escutam histórias sobre grandes figuras do comércio no centro. A Casa Alberto Tecidos é uma das lojas que resiste e há 75 anos seus tecidos luxuosos vem contrastando com o tecido popular, a chita que é facilmente reconhecido nas manifestações populares da capital, como nos figurinos de rasqueado.

Hoje, no entanto, o comércio do centro se tornou menos atraente com o fortalecimento dos estabelecimentos nos bairros e shoppings. O que enxergamos é um centro decadente, onde os mesmo espaços que antes eram considerados luxuosos, hoje sentem o peso de carregar em si a cicatriz do tempo e do abandono.

Parede em estado precário de conservação no Centro Histórico de Cuiabá | Foto: Com_Texto

Ainda em 2019 o Ministério Público do estado informou que 40 imóveis do centro histórico corriam risco de desabamento. As autoridades cobram dos proprietários e os proprietários, por outro lado, argumentam a inviabilidade de arcar com os custos de uma restauração.

Entre essa dualidade cabe aos cidadãos de Cuiabá, refletir qual parte da responsabilidade é, também, do coletivo. Infelizmente hoje dizer que se vivencia o centro é, dentre muitas coisas, dizer que se vivencia o apagamento da história através do descaso, em um lugar em que as paredes, literalmente, pedem por socorro.

Manifestação artística contra o descaso no Centro Histórico |Foto: Com_Texto