Em um ano sem carnaval de rua, o Com_Texto foi na história buscar outras folias que embalaram a capital mato-grossense.

O que até dois anos atrás seria improvável, aconteceu: um fevereiro sem carnaval. No dia 25 de janeiro, o prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro (MDB), assinou um decreto proibindo a realização de eventos de carnaval na capital, entre os dias 15 e 16 de fevereiro. A decisão surge diante de uma alta no número de casos confirmados da Covid-19, que já atingiu mais de 9 milhões de pessoas no Brasil até o fechamento deste especial. 

Com a medida, além da proibição das festividades, os dias 15, 16 e 17 também foram transformados em datas úteis, tornando remotas as chances de realização de qualquer tipo de comemoração. A medida não é inédita, já que prefeituras de cidades onde o carnaval aparece como uma data forte no calendário oficial também optaram pelo cancelamento das festas, como é o caso de Salvador e Olinda. 

Diante de um contexto nada favorável para aglomerações e trocas de afeto, características inseparáveis deste período do ano, o Com_Texto revisitou os jornais mato-grossenses dos anos 1980 em busca de elementos para uma reconstrução histórica de carnavais de outras décadas, em uma Cuiabá de outras festas. 

COMEÇA OS PREPARATIVOS

O ano era 1984 e as mudanças no carnaval aconteciam em todo o país. Enquanto os cariocas observavam com atenção a inauguração da Marquês de Sapucaí, os cuiabanos estavam realmente atentos ao seu novo “sambódramo”, que passava da Avenida Getúlio Vargas, para a Avenida Mato Grosso.

O novo espaço não tinha aprovação unânime, mas era uma saída encontrada pela prefeitura de Cuiabá para afastar o fluxo contínuo de pessoas do centro, e também dar novos contornos para uma região até então pouco movimentada.

Em pronunciamento para a imprensa, o então prefeito Anildo Lima Barros, na época filiado ao Partido Democrático Social (PDS), além de anunciar a mudança no local dos desfiles, também garantiu a realização de um “Baile de Carnaval no melhor clube da cidade”, restrito aos que tivessem dinheiro para garantir o ingresso e uma boa fantasia. 

Temendo uma repercussão negativa, já que não estava distante da opinião popular que o carnaval cuiabano era “anti-povo”, o prefeito garantiu que todo o dinheiro arrecadado seria revertido para “instituições de caridade”. No encerramento de sua fala ainda sobrou espaço para uma última frase: “Não é possível que o brasileiro fique sem seu carnaval e sem seu futebol”.

Faltando pouco menos de um mês para o carnaval, um dos principais jornais da época, o Jornal do Dia, dedicava um momento especial para que seus leitores pudessem opinar sobre as expectativas para a folia daquele ano. Os relatos, apesar de serem registrados em 3 de fevereiro de 1984, soam um tanto quanto atuais. “Aqui não tem nível em relação aos outros estados. Todo ano eu pulo em outro local. Fiquei um ano aqui e não gostei”, afirmava Francisco Moraes, morador do Coxipó. 

Apesar das opiniões desfavoráveis, era notório que o carnaval permanecia sendo o assunto do momento, seja nas páginas dos jornais, ou nos calçadões do centro.

SOBE PASSISTA, DESCE ALA, LÁ VEM AS ESCOLAS DE SAMBA

“Estrela do Oriente”, “Mocidade Independente Universitária”, “Unidos do Coxipó”, “Unidos do Porto” e “Pega no Meu Coração”. Esses são alguns dos nomes das Escolas de samba que atravessavam avenidas e levavam o público ao delírio. Mesmo com recursos escassos e pouco incentivo, não faltavam esforços para que todos pudessem  brincar o carnaval com brilho e amor pelo samba.

Naquele ano, a expectativa era de uma disputa acirrada entre as Escolas. Enquanto a Unidos do Coxipó se colocava como uma das favoritas, já que era a grande campeã do ano anterior, a Mocidade Universitária, escola criada por estudantes da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), buscava seu título prometendo um desfile com 600 integrantes, quatro alas e 20 tipos de fantasias diferentes, algo grandioso para as dimensões do carnaval cuiabano.

Matéria publicada no Jornal do Dia em 5 de fevereiro de 1984. | Foto: Acervo da Biblioteca Nacional Digital/Arquivo Público de Mato Grosso

Enquanto o ritmo de pré-carnaval tomava conta, a preocupação dos dirigentes das Escolas crescia diariamente, e o motivo era claro: sem dinheiro, sem carnaval. Dependendo quase que exclusivamente da verba disponibilizada pela Prefeitura e pelo Governo do Estado, as agremiações contavam com a “boa vontade” dos cofres públicos para que todas as fantasias e adereços fossem produzidas no tempo previsto.

Outro ponto que ocupava a cabeça não só dos diretores de carnaval, como também dos carnavalescos, era a dificuldade em encontrar todo o material necessário para a confecção das peças, já que boa parte da matéria prima usada só poderia ser comprada em cidades como São Paulo.

Era comum que os responsáveis pelas alegorias e adereços iniciassem o carnaval já em novembro, quando cruzavam longas distâncias para buscar o que faltava em Cuiabá. A ideia era deixar tudo pronto antes da primeira semana de fevereiro, mas nem sempre as coisas saiam como planejado. 

Com a disputa do título em jogo, o carnaval de 1984 quase foi marcado por um acontecimento trágico, como revela a primeira página da edição de 16 de fevereiro daquele mesmo ano:

A manchete estampava a primeira página do jornal que também apresentava detalhes da crise nas páginas seguintes. | Acervo da Biblioteca Nacional Digital/Arquivo Público de Mato Grosso

A ameaçava era uma forma de pressionar as organizações públicas para a liberação de toda a verba prometida. Naquele momento, a crise já atravessava a gestão do então governador de Mato Grosso, Júlio Campos, filiado na época ao PDS. 

Após muita pressão, no dia 22 de fevereiro, o dinheiro começou a chegar no caixa das Escolas. No total, o investimento por parte das instituições governamentais somavam 24 milhões de cruzeiros, valor considerado insuficiente para a construção do desfile idealizado pelos carnavalescos. 

“QUEM NÃO TEM COLÍRIO USA ÓCULOS ESCURO”

Enquanto os preparativos para a grande festa seguiam, mesmo que “aos trancos e barrancos”, o então secretário de Estado de Saúde de Mato Grosso, Gabriel Novaes Neves, tranquilizava a população sobre um possível novo surto de conjuntivite na capital. 

A doença, marcada pela coceira excessiva nos olhos, já tinha atingido um grande contingente de pessoas no carnaval de 1983, fazendo com que alguns foliões perdessem as festividades para conseguir se recuperar. 

Para o secretário, eram remotas as chances de um novo surto da doença. A aposta era manter a população informada sobre as formas de prevenção. Apesar disso, todos os Postos de Saúde da cidade seguiam em estado de alerta caso algo saísse fora do esperado. 

Com a possibilidade descartada, os foliões até poderiam usar óculos escuros no lugar do colírio, mas por outros motivos.

Nesta mesma edição, os críticos de arte da capital apontavam que os desfiles de 1984 seriam “esfarrapados” por conta do atraso no repasse da verba de incentivo. | Foto: Acervo da Biblioteca Nacional Digital/Arquivo Público de Mato Grosso

“VAI COMEÇAR A GRANDE FESTA DO CARNAVAL”

Sexta-feira, 2 de março de 1984, e o Tênis Clube já se preparava para receber um de seus principais eventos de carnaval, o “Baile Cidade de Cuiabá”, aquele organizado pela Prefeitura com o objetivo de arrecadar fundos para instituições que prestavam serviços sociais. O evento era considerado também a largada oficial das festividades na capital, com direito a concurso de fantasias “black tie”. 

Já do outro lado da cidade, onde todo o movimento acontecia na rua, os Blocos, as Escolas e os cordões carnavalescos davam os últimos retoques para atravessar a avenida. O que se previa para os próximos dias era uma crescente no volume de pessoas que tomariam as ruas, os clubes e os botecos da cidade verde.

Laura em um dos desfiles que participou durante os anos 1980/1990. | Foto: Arquivo Pessoal

Quem conhece bem todos esses preparativos não deixa dúvidas sobre a potência que acompanhava o carnaval de outras décadas. “Antes eu descia a avenida em um bloco, subia, trocava de fantasia e descia novamente em outro bloco ou Escola de samba”, conta Laura Grace, um dos principais nomes quando o assunto é samba no pé e no coração. 

Criada no bairro Araés, Grace revela que enfrentou a resistência da família para dar asas ao seu amor pelo samba. “Na minha família não era muito aceito o fato das moças dançarem samba, então enfrentei muita resistência. Minha mãe não deixava, e eu tinha sempre que fugir ou ir meio que escondida. Rompia todas as barreiras porque a paixão pelo samba era muito grande”, rememora a hoje servidora pública. 

Qualquer um que fosse acompanhar as festividades de rua poderia encontrar a dançarina deslizando pelas avenidas. Foi durante os anos 1980 que a servidora deu seus primeiros passos no carnaval da capital, passando pelo bloco “Urubu Cheiroso”, fundado por uma de suas tias, e indo até escolas de samba como a Mocidade Universitária.

Para Grace, tudo que envolvia o carnaval fazia seu coração bater mais forte. “É o ritmo, é a alegria, é ver as pessoas se preparando para desfilar, o toque dos instrumentos, é tudo”, diz a dançarina. 

Quem também não ficava de fora do balancê era Luciano Platini. Filho de costureira, o carnavalesco aprendeu desde cedo a real beleza do carnaval, já que sempre acompanhava a mãe no momento da confecção das fantasias. “Minha mãe costurava para a Mocidade Universitária, fazia todas as fantasias da Escola e já aproveitava para fazer as nossas também, então sempre participei”, revive o hoje decorador e vitrinista.

Apesar de gostar muito da costura, Platini se diz mais ligado ao bordado. | Foto: Arquivo Pessoal

Naquela altura, em que o carnaval já ganhava um ritmo frenético em várias partes da cidade, espaços como a quadra do Sesc, o clube Sayonara, e a Associação dos Servidores da Caixa Econômica Federal (Ascef), eram tidos como os mais animados para além da avenida. 

Um dos destaques quando o assunto é carnaval nos clubes eram os preços dos ingressos. Enquanto o Sayonara saia na frente com a fama de mais acessível, outros pontos chamavam atenção pelos preços mais altos. “Era visível como essas festas nos clubes eram elitizadas, só as pessoas que tinham dinheiro conseguiam ir. Clubes como o “Dom Bosco” e “Náutico” eram os da elite”, conta Platini. 

Apesar dos encontros e desencontros entre públicos distintos, não era novidade que a essência do carnaval cuiabano estava mesmo na alegria de cada folião que via sua escola passar ou que se reinventava para conseguir se jogar na folia. 

“A CULTURA POPULAR VENCE O CARNAVAL CUIABANO – 84”

A frase é de Amauri Tangará, cineasta mato-grossense que integrou a comissão de frente da campeã dos Desfiles das Escolas de Samba de Cuiabá, a Unidos do Porto. Surpreendendo quem apostava na Mocidade Universitária, ou até mesmo na vencedora do ano anterior, a Unidos do Coxipó, a agremiação levou o título com o enredo que homenageou a cultura popular cuiabana.

Somando 95,5 pontos totais, a agremiação se consagrava como a Escola que apresentou o melhor conjunto. Na apuração também foi reconhecida a campeã da segunda divisão do carnaval cuiabano, prêmio que ficou com a Escola Estrela do Oriente. 

Ao final da festa de 84, a sensação de muitos foliões era de uma festa mais animada que no ano anterior. Pelo menos foi o que sentiu José Gonçalves da Silva, morador do Coxipó. “Este ano foi bem animado. O carnaval de rua foi bem melhor que ano passado. É o melhor do Centro-Oeste”, comentou. 

É DE BOAS MEMÓRIAS QUE SE REMONTA UM CARNAVAL

Em um ano sem carnaval, direcionar o olhar para o passado parece um caminho inevitável, seja por meio de postagens de selfies feitas em anos recentes, ou da abertura de álbuns de fotos que permanecem distantes da era digital. 

A recordação de outros carnavais também aparece como uma forma de alerta para que a festa não morra. “Sinto saudade dos ensaios de antigamente, das matinês, sinto saudade daqueles desfiles que colocavam as arquibancadas dos dois lados. Era lotado, tinha povo, era muito povo. Sinto saudade de tudo, porque tudo se acabou”, desabafa Grace. 

O receio da dançarina se mistura com o sentimento de temor do carnavalesco, que nota uma grande diferença no carnaval cuiabano. “O carnaval foi perdendo aquela animação, e se a gente não cuidar, o carnaval de Cuiabá vai acabar, e já está caminhando para isso”, observa Platini. 

Apesar da necessidade de permanecer em casa, Laura Grace finaliza com uma mensagem de esperança para todo folião que nutre a chama da folia mesmo em tempos de pandemia. “Por mais que meu coração doa em saber que pela primeira vez na minha vida vou ficar sem o carnaval, me sinto aliviada em lembrar que isso vai ser pela nossa saúde”, concluiu. 

Para esta reportagem foram utilizados registros disponibilizados pela Hemeroteca Digital, da Biblioteca Nacional Digital.