Em busca de um mundo melhor, a artista vem construindo redes de apoio e representação

Com um celular, caixas que servem de tripé e muita vontade de contar histórias invisibilizadas, Allie Barbosa compartilha narrativas baseadas em  mulheres trans e travestis pretas que vivem no interior do estado de Mato Grosso. Com intuito de participar de editais artísticos, a estudante de artes cênicas, queria, inicialmente, usar a verba dos editais para ajudar financeiramente redes de apoio às mulheres trans e travestis que se encontram em situação de risco agravada pela pandemia Covid-19. 

Hoje, com um alcance relevante nas redes sociais, Allie procura pessoas que estejam dispostas à ajudar no projeto e organizar ações voluntárias de amparo à mulheres trans e travestis pretas. 

O PROJETO

“O projeto ‘Contando o Bafo das Pretas’ nasce também das minhas experiências, porque foi exatamente no período em eu estava vindo para Mato Grosso passar a quarentena na casa da minha irmã que eu pensei em como ter o auxílio da faculdade tem me ajudado, mas que essa realidade não é de todo mundo, e existem outras meninas que não têm nada. E eu sei o que é não ter nada, sei o quão é difícil”, explica a estudante. 

Nascida no Vale do Araguaia de Canarana, em Mato Grosso, Allie Barbosa estuda atualmente na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), em Minas Gerais, no curso de Artes Cênicas. Ela conta que sempre sonhou em ser artista, e que desde de criança pensava em seguir a profissão, mas só teve acesso às movimentações de arte por meio da faculdade, na qual faz bacharel em interpretação. 

Allie ainda ressalta que a preocupação em garantir algum tipo de auxílio para mulheres trans e travestis pretas deve-se ao fato de que ela mesma já precisou dessa ajuda e não teve.  “Eu tive que fazer faxina por 25 reais, para me manter, tudo isso porque eu sou uma travesti, então eu tenho que ajudar essas meninas e como elas precisam contar as histórias delas e serem ouvidas, eu criei o ‘Contando o Bafo’ ”, salienta. 

DA IDEIA À EXECUÇÃO

Decida a fazer algo, Allie entrou em contato com mulheres interessadas em dividir suas experiências e a partir dos relatos elaborou suas intervenções artísticas que compartilha em vídeos na internet.

“A menina que vai bater ponto, mesmo durante a pandemia, só precisa de roupa”

“Eu conheci uma travesti que comanda uma casa de acolhimento para pessoas trans em Rondonópolis, aí entrei em contato pelo Facebook , expliquei o projeto, pedi que ela me passasse alguns contatos e contasse algumas histórias. Daí, ela mesma me contou várias, inclusive é sobre um relato dela o primeiro vídeo do projeto”, conta a Allie.  

Além de buscar histórias de pessoas reais, a estudante produz sozinha todo o cenário e suporte técnico necessários para gravar os vídeos. “Após colher os depoimentos das meninas, eu escrevo ele, depois transformo em uma narrativa e então penso na forma de contar essa história. Decoro o texto, ligo a câmera do meu celular e gravo com suporte caseiro, com caixa ou cadeira. Além, de sempre pensar em ângulos diferentes da minha própria casa, para mostrar que são casos diferentes, que são vivências diferentes”, revela Allie. 

A artista também ressalta a preocupação em contar essas histórias, atentando-se sempre em preservar nomes, quando solicitado, e também pedir a autorização para que sejam encenadas, explicando também o porquê contar histórias de mulheres trans e travestis pretas. 

“Eu pensei nessa abordagem, porque eu acho que a gente como bixa preta travesti, a gente como mulher trans preta não tem representação em lugar nenhum. E quando tem é sempre caricato e representado por homens cis. Então uma pessoa trans encenando histórias de pessoas trans é sempre difícil, mas esse é o meu intuito, contar histórias de pessoas trans pretas, sendo parte dessa comunidade trans preta”, explica. 

REDES DE APOIO

Quando começou a divulgar os videos nas redes sociais, Allie Barbosa pedia que quem pudesse a procurasse em suas redes sociais para ajudar financeiramente as meninas que inspiraram as histórias contadas. O vídeo recebeu vários compartilhamentos e então uma amiga de Allie sugeriu que ela fizesse uma vakinha online – nesse processo, a criadora estabelece uma quantia como meta e os doadores ajudam a atingir o objetivo final.

“A ideia inicial foi inscrever o vídeo em vários editais, por isso que eu vinculei ele na internet, criei o canal no youtube e uso minhas redes sociais pessoais para divulgar. É importante dizer que eu não fico com nada do que é doado, toda a verba é destinada à casa de acolhimento. Uma amiga minha da faculdade que deu a ideia de criar uma vaquinha de 2 mil reais, aí tivemos a felicidade de uma pessoa só doar toda a quantia, mas como as meninas ainda precisam de ajuda, outras pessoas podem continuar doando”. 

As histórias contadas por Allie denunciam realidades cruéis de violência e vulnerabilidades sofridas por mulheres trans e travestis, em especial na cidade de Rondonópolis (214,9 km de Cuiabá), interior de Mato Grosso. Como são fatos que permeiam a vida da estudante, ela revela que em alguns momentos é difícil levar o projeto sozinha. 

“Eu mesma não sei se tenho psicológico para levar o projeto por muito tempo, porque são histórias muito pesadas e eu até acho que meu psicológico não aguenta.Talvez, se eu tivesse mais contato com pessoas que pudessem me ajudar fosse mais fácil. Eu quero muito que o projeto tenha uma proporção maior, para ajudar mais essas meninas. Então pessoas de Mato grosso que quiserem apoiar o projeto estou aberta, até porque as demandas são diferentes, já chegou até a mim meninas que não têm documentos, ou seja passa também por questões sociais, financeiras e legais”, evidencia Allie. 

“Essa é uma história real de uma travesti preta que quis se manter anônima”

COMO AJUDAR? 

Doando pela vakinha online clicando aqui, ou entrando em contato pelo Twitter, por meio dos endereços @alliebsolar , @maluolv e pelo instagram no @aalliebarbosa. E se você não puder doar, ajude compartilhando com outras pessoas, para que possa chegar em quem pode. 

“A mensagem que eu quero passar para as pessoas é que escutem as histórias das travestis pretas, escutem as vozes delas, ajudem a garantir o mínimo para elas. Eu já vivi momentos de não ter o mínimo e sei como é isso, você sair de uma situação horrível para conseguir se tornar alguém é muito difícil. O mundo ainda não está preparado para gente, mas se as pessoas pararem para ouvir, e julgar menos, talvez elas consigam nos entender e quem sabe o mundo seja um lugar melhor para nós”, finaliza.