Em entrevista especial ao Com_Texto, presidente falou a crise no sistema de saúde de Mato Grosso e o fechamento em Cuiabá e Várzea Grande

Texto: Marcos Salesse

O crescimento acelerado dos casos da Covid-19 na região metropolitana de Cuiabá fez com que o Sindicato dos Profissionais de Enfermagem de Mato Grosso (Sinpen-MT) encaminhasse, nesta segunda-feira (8), um documento ao Ministério Público do Estado (MPE) pedindo o fechamento total da capital e de Várzea Grande. Na tarde desta terça-feira (9) o Com_Texto conversou com o presidente da organização, Dejamir Souza Soares, que revelou uma situação crítica no sistema de saúde dos municípios. 

Para o presidente, uma das maiores preocupações é o risco eminente da falta de leitos em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) para atender a população mato-grossense. Em visita que realizou, na manhã de hoje, pelos hospitais públicos de Cuiabá e Várzea Grande, Dejamir contabilizou aproximadamente 35 leitos disponíveis para atender toda a população. 

O documento enviado ao MPE-MT aponta ainda um estudo feito pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que prevê aproximadamente 300 mil infectados em todo o estado até setembro, caso a reabertura se mantenha. 

Além do fechamento total, o Sindicato pede ainda a construção de um hospital de campanha que ofereça no mínimo 120 novos leitos de UTI para atender a população mato-grossense. 

Por se tratar de um pedido em caráter de urgência, o MPE-MT iniciou o processo de análise e despachou o documento para os promotores de Justiça dos respectivos municípios. Nos próximos dias os promotores devem colher informações com especialistas para decidir se entram ou não com o pedido de fechamento total. 

Diante de todo o fato, o Com_Texto entrou em contato com o presidente do Sindicato e apresenta agora a íntegra da entrevista. Acompanhe:

CT: Primeiro gostaria que você relatasse do que se trata essa solicitação e qual a motivação dela? 

PR: “A solicitação se deu por três motivos: primeiro pela indisciplina da população, que culminou na explosão da doença, com um aumento de 980% no último mês, pela falta de leitos disponíveis para Cuiabá e Várzea Grande, haja vista que dos leitos que temos, 90% foram ocupados por pacientes do interior, e pelo colapso dos hospitais particulares que também estão com dificuldades de leitos. 

Aliada à essas situações, temos os profissionais de enfermagem, que não têm o direito à fazerem testes de Covid-19 quando um colega se contamina e é testado positivo. Foi negado tanto na área pública quanto na privada o direito de fazer a testagem ou começar um tratamento imediato, pelo contrário, colocaram uma normativa que diz que se desenvolver sintomas faz o teste, confirmando, aí sim, faz o isolamento. Mas nesse ‘se tiver sintomas’, a categoria foi fazendo o que a gente chama de infecção cruzada, que acabou se transformando em uma transmissão comunitária entre todos os hospitais de Cuiabá e Várzea Grande, porque os profissionais de enfermagem,em sua maioria, não trabalham em apenas um hospital. 

Isso foi o que motivou o pedido do sindicato, mas também a falta de leitos e um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) que prevê 300 mil casos em primeiro de setembro. 

Então, se não fizermos nada, se ninguém puxar a rédea, ou que seja um lockdown, nós vamos ter todos esses casos sim. Algo precisa ser feito antes e por isso nós entramos com o pedido no Ministério Público Estadual, para que eles tomassem uma providência. 

Olhando o sistema do MPE-MT vi que a ação foi para o presidente e esse encaminhou para a procuradoria de Várzea Grande. Então queríamos que o Ministério  saísse da zona de conforto que se encontra, porque os casos estão aumentando e o número de mortos também. 

O secretário fala que temos 53% de leitos disponíveis, só que eu tive a curiosidade de dizer ‘onde é que estão estes leitos?’, e descobri que essa soma conta os leitos do interior, mas o grande problema está aqui em Cuiabá, o centro da doença é aqui.”

MS: Você comentou que um dos motivos do pedido é tirar o MPE-MT da zona de conforto, e nos últimos meses temos visto uma atuação bem presente do judiciário em decisões que envolvam políticas sobre o novo coronavírus, um exemplo é a relação entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Governo Federal. Você sente que o único caminho possível neste momento é o viés jurídico? 

PR: “Exatamente. O prefeito de Cuiabá por exemplo, parou tudo lá atrás quando tínhamos poucos casos, agora que temos uma explosão de novos casos ele não quer frear porque resolveu reabrir o comércio. Então é absurdo esse posicionamento do prefeito, que não leva em consideração a vida das pessoas que estão sendo levadas pela doença, nós estamos em um momento que a doença é tão violenta que quando a pessoa pensa em precisar de UTI, ela já tem que estar na UTI, quando ela pensa que está no leito, ela já está morrendo. É tudo muito rápido, a doença é muito rápida e muito letal. 

Tenho trabalhado nos hospitais e acompanho os casos, o cara passa mal de manhã e à tarde já precisa da UTI, se não tiver UTI, à noite ele já está no caixão. É desse jeito, muito rápido. Não dá para ter essa demora, essa burocracia, essa conversa bonita de chamar coletiva para falar de decreto, é para ontem. 

Segundo nossos cálculos, para a próxima sexta-feira já não teremos mais vagas. Vou te dar um cálculo das visitas que fiz hoje: Pronto Socorro de Cuiabá tem 30 leitos de UTI ocupados, Santa Casa com 40 leitos de UTI e apenas 4 vagas hoje de manhã, Metropolitano com 40 leitos e apenas uma vaga. 

Depois que chegamos na mídia e bombardeamos com a realidade, o prefeito resolve falar que o Hospital São Benedito vai abrir com 40 leitos. Liguei na central de regulação e descobri que já tinham 15 pacientes regulados no hospital, todos em estado grave. Sendo assim,  sobram 25 vagas, então não temos 40. Veja bem, se hoje, em apenas um único dia 15 vagas foram consumidas, os outros 25 leitos serão ocupados até sexta-feira. Apesar que, eu acredito que temos uma média de 30 vagas, porque sempre  surgem vagas das outras pessoas que morrem, infelizmente a letalidade está muito alta nas UTIs. 

MS: Então diante de todas estas explicações o Sindicato pede um fechamento total como a melhor medida para o momento. É isso? 

PR: O pedido específica duas coisas: o lockdown em Cuiabá e Várzea Grande e um hospital de campanha com 120 leitos  de UTI,  que é o que o Governo Federal oferece e que Mato Grosso ainda não fez o pedido desses leitos. 

MS: E existe de fato um número grande de pacientes que vem do interior para Cuiabá? 

PR: Sim, porque na verdade, o HMC (Hospital Municipal de Cuiabá) hoje tem 70% de pacientes do interior, fora os casos da Covid-19. E eu posso afirmar que 90% dos casos que estão na UTI da Santa Casa e do Metropolitano são pacientes que vem através da UTI no Ar, que o Governo do Estado montou, fazem em média 5 a 6 voos ou até mais trazendo pacientes do interior com a Covid-19. 

Então eu só gostaria que os gestores pensassem na população como um todo, é importante comércio funcionar? Sim, mas precisamos pensar. 

É importante dar um passo atrás, para salvar vidas à frente. Chegou o momento dos gestores reconhecerem que houve um equívoco e que precisa ser corrigido, e esse equívoco se corrige assim: dando um passo atrás para salvar vidas a frente. 

*Com colaboração de Beatriz Passos