Diante do episódio da distribuição de exemplares do “Novo Testamento”, no dia 24 de outubro, em frente a uma das principais entradas da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), fica evidente a necessidade de pensar o lugar da intervenção religiosa nos espaços públicos. E a importância deste debate se manifesta, ainda mais, quando estudantes da Universidade, por meio das redes sociais, proliferam discurso de ódio direcionados àqueles que se sentiram incomodados com a situação.

A manifestação de credo, assim como a não manifestação de credo, são direitos assegurados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Porém, entendendo que a sociedade possui diversidade de expressões sócio-culturais que resultam em diferentes compreensões sobre a vida, é possível concluir que é de interesse comum a existência de espaços livres de dogmas sacros.

Dentro dessa realidade existe o Estado Laico, que assegura uma posição neutra do país em relação aos campos religiosos, assumindo uma imparcialidade e não discriminação de qualquer crença. Esse mesmo Estado, se é que um dia ele chegou a existir, parece ser constantemente desrespeitado, uma vez que religiosos, em sua maioria cristãos, impõem sua crença como soberana e universal.

O marco dessa conjuntura se configura no presidente eleito pela maioria dos brasileiros, Jair Bolsonaro (PSL), que utilizou do discurso religioso como campanha, prometendo a superioridade de um deus cristão sobre o regime democrático do país. Clama o presidente, “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos!”.

Por isso, ações como a que ocorreu no dia 24 de outubro não devem ser encaradas como simples e sem consequências. Não quando terreiros de candomblé são violentamente atacados por pessoas com discursos fundamentalistas.

Na verdade, desde os tempos coloniais a prática de religiões de matrizes africanas são discriminadas e tidas como práticas criminosas, para entender esse fato, basta se debruçar na história do Brasil e descobrir que a existência de templos religiosos afro brasileiros era registrada como crime em delegacias, enquanto o cristianismo ditava e dita grande parte dos acontecimentos, em posição de poder, influenciando a vida de todos.

Dessa forma, antes mesmo de defender a distribuição de escritos religiosos em frente a um prédio público, que promete englobar a diversidade social dentro de sua comunidade, vale a pena o esforço de questionar o porquê algumas práticas se sentem mais confortáveis em manifestar seus princípios e outras não?