Após 59 anos resguardando sua verdadeira identidade, Ana Carolina Apocalypse conquistou espaço nas redes sociais compartilhando seu processo de transição

Texto: Marcos Salesse | Imagens: Arquivo Pessoal

A palavra “Apocalipse” é definida pelo dicionário como “qualquer acontecimento catastrófico, geralmente relativo ao fim do mundo ou à extinção da humanidade”, entretanto, para Ana Carolina o termo carrega outro significado, caracterizado pela retomada de identidade, vivacidade e recomeço. Nascida em São Paulo, Ana Carolina Apocalypse conquistou um significativo espaço na internet ao expor o seu processo de transição, no auge de seus 62 anos. 

Utilizando as redes sociais como ferramenta para compartilhar suas alegrias e descobertas, a motorista soma no Instagram mais de 17 mil seguidores, já no Twitter o número passa dos 65 mil. O tweet onde apresenta as diferenças do antes e depois da transição superou os 300 mil likes, além das múltiplas mensagem de carinho e apoio. 

Apontada como referência por muitas pessoas que à acompanham, Ana afirma que não se vê como uma fonte de inspiração, e que gostaria apenas de transmitir uma mensagem de felicidade. “O meu recado é para que as pessoas sejam felizes, mas cada um à sua maneira, não da maneira que eu fui, porque fiquei fechada por muito tempo, tem gente que fala ‘eu vou copiar a Ana, só vou me projetar daqui a 62 anos’, e eu digo não, não porque hoje a coisa é bem diferente”, conta. 

Com um tweet comemorando o seu processo de transição, Ana Carolina reafirmou que nunca é tarde para ser feliz | Foto: Reprodução

Foram 59 anos escondendo sua verdadeira identidade, e hoje a história de Ana é vista como exceção, uma vez que, a expectativa de vida de mulheres trans e travestis não passa dos 35 anos, menos da metade da média nacional, que segundo o IBGE, beira os 75 anos.

Dialogar sobre velhice se apresenta como um espaço caro para o movimento, já que antes mesmo de pensar nas vivências da população que atinge esta faixa etária, muitas ainda lutam pelo reconhecimento da sua identidade, e fundamentalmente pelo direito à vida. 

Antes da entrevista começar, Ana já anunciava que uma boa conversa desencadeava longas histórias sobre sua vida. “Costumo falar bastante viu. Tem gente que me entrevista e eu começo a falar, falar e falar, até a pessoa dizer ‘tá bom Ana, você já contou tudo o que eu ia perguntar’”, revela.

Abrindo o diálogo sobre a relação entre o envelhecimento e a transsexualidade, Ana atendeu o convite do Com_Texto para uma entrevista, e o resultado você pode ler abaixo:

MS: Gostaria que você me contasse quem é Ana Carolina Apocalypse? De onde ela vem? O que ela gosta? E no que ela acredita?

AP: Nasci em São Paulo, em 1958, uma época que praticamente nem sabia o que eu era, não entendia muito as coisas, mas já sentia desde pequena que alguma coisa diferente em mim tinha, me sentia muito mais feminina do que masculina. Na época o José Francisco dominava, mas a Ana Carolina estava ali embutida.

E nessa mesma época algumas pessoas falavam ‘viado’ ou ‘gay’, então eu achava que eu era um ‘viado’ vamos dizer assim. E em 1970, quando eu tinha 12 anos, muita gente não era nem nascida ainda, inclusive você, e nessa época não tinha nada, as televisões eram em preto e branco, telefone era aquele de disco, depois é que vieram os telefones de teclado. Aí eu fui crescendo nisso, com meus 12 anos já saía com as meninas, namorava, beijava, mas sempre ali na minha figura masculina. Cresci, estudei e vivi uma vida normal. Fui muito sábia por ter ciência do que acontecia comigo e me resguardar.

Depois, com 20 anos, acabei perdendo duas pessoas que foram infectadas pelo HIV, porque em 1970 nem existia a Doença Sexual Transmissível [atualmente conhecida como Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST)], ninguém falava sobre isso, a partir desse acontecimento eu comecei a ficar mais introvertida, acabei me fechando e vivi minha vida normal, saia com amigos, bebia cerveja, vida de adolescente. Tempos depois me casei, vivi 17 anos com uma mulher, e esse casamento me deu uma menina.

Não tive problema com escola ou família, fui crescendo, trabalhando, mas mesmo assim com um instinto feminino que eu nunca projetava, porque sabia que aquilo para mim poderia tirar bastante oportunidades de emprego, por exemplo. Como sempre fui uma pessoa boa e honesta, muitas coisas boas surgiram.

Um tempo depois de casada eu acabei me divorciando e comecei a trabalhar com caminhão, isso até 2015, depois parei e decidi me organizar, comecei a ficar mais em casa, e foi quando a Globo colocou no ar aquela novela ‘A Força do Querer’.

Lembro que tinha até aqueles comentários de que a emissora estava incentivando as pessoas a serem gays, as pessoas preferem pegar o bonde andando do que querer saber o que é. O que essas pessoas gostam de fazer é falar mal da vida dos outros, principalmente da minha por eu ser uma pessoa transgênero.

Essa novela em 2017 foi o estopim, eu nem sabia o que significava a palavra transgênero, e foi a partir dela que comecei a me identificar com a personagem da Carol Duarte.

Eu desconheço muita coisa ainda, tanto é que as vezes falo para o pessoal ‘gente eu não sei postar um link direito’, esses dias pediram para eu colocar um link no meu Instagram, aí me explicaram ‘Ana, não coloca link no feed, tem que colocar na página inicial’, tive que pedir para uma amiga minha colocar. Então tem muita coisa que eu desconheço, até porque eu tenho 62 anos, mas não que eu seja uma pessoa mal esclarecida, é tanta coisa que essa garotada acompanha na internet. Vivo aqui no meu mundinho, totalmente longe do mundo da fama, posso chegar a 300 mil seguidores, mas serei sempre a mesma Ana.

Acho que para tudo tem sua hora, até eu quando decidi me colocar com os meus 62 anos, achei que era ali o momento exato, já que desde os 59 comecei a fazer o processo de hormonização pelo SUS.

Quando senti que era a hora, procurei o caminho correto com psiquiatra, psicólogo, endocrinologista, e deu no que deu. Então é isso, a Ana Carolina Apocalypse é uma pessoa muito simples.

Entre vídeos e fotos do seu cotidiano, as redes sociais de Ana ganham cada vez mais visibilidade | Foto: Arquivo Pessoal

MS: Em uma das matérias que li sobre a sua vida, era colocado que você decidiu não começar a transição mais cedo como uma estratégia de sobrevivência. Era isso que você sentia?

AP: Na minha cabeça, desde pequeninha, já sabia que existia esse contexto que na minha época nem tinha nome, você ouvia ‘gay’, ‘viado’ ou ‘travesti’ e só. Eu posso dizer que para mim tudo foi natural, acompanhando a minha vida da infância até 2017, senti que através daquela novela a homofobia deu uma freada, vamos dizer assim. Quando ouvi a palavra ‘transgênero’ pensei ‘é agora’, nesse momento decidi me lançar.

Procurei uma psiquiatra e ela me passou o endereço do Centro de Referência e Treinamento, o CRT, e ali eles acolhem as pessoas que buscam esse tratamento que eles chamam de hormonoterapia, oferecido para quem se identifica como transgênero. Fui até lá comecei a pesquisar e interagir com as pessoas e hoje estou aqui.

MS: E como foi o atendimento? O acesso ao serviço aconteceu de forma tranquila? As pessoas que atuam neste espaço te acolheram de fato?

AP: Foi muito legal, foi muito bom para mim. Só que eu que não entendia, então aquilo para mim era um mundo novo. Tanto que é na primeira entrevista, que eles fazem quase uma palestra, uma moça falou ‘então Ana, agora que você se sente uma mulher vamos arrumar esse cabelo, passar um batom, usar umas roupas mais femininas’, aquilo me assustou, falei ‘caraca, mas assim logo de início?’, era como se eu entrasse em uma empresa nova e a pessoa não me desse chance para poder sentir a empresa e ver como é o contexto.

E quando fui fazer meu tratamento pelo SUS [Sistema Único de Saúde], ficava olhando e via muita gente lá sentadinha maquiada, com os seios, só que quando eu me via, estava de menino. A minha psicóloga até falava para mim ‘você já foi casada?’, e eu respondia ‘já’, aí ela ficava com receio de me liberar para começar o tratamento. Aí eu me vesti toda de Ana, fui lá e quando ela me viu toda maquiada, ela se convenceu e me liberou para fazer o tratamento.

Eu gosto muito do SUS, quando você chega lá, é sempre pedido para cuidar da saúde, porque se as pessoas não cuidam da própria saúde, não adianta elas quererem se harmonizar. 

O processo começa com a endocrinologista, passa pela psicóloga, que faz umas duas entrevistas e se ela liberar você começa a hormonização e as consultas periódicas com o psiquiatra. Não que a pessoa tenha algum distúrbio, mas para o médico olhar e ver como você está se sentindo, se a pessoa está legal, se está gostando.

MS: E você se sente mais realizada hoje?

AP: Eu sempre me senti uma pessoa realizada, não tem esse negócio de infelicidade comigo, e nunca vai ter. Acho que assim, tudo o que eu fiz foi no tempo certo e isso aí eu não tenho dúvida. 

A questão da idade pra mim, é que eu só quis me projetar a partir do momento que comecei a me entender. Só em 2017 por exemplo é que eu fui entender o que era a palavra transgênero. Então digo, nunca é tarde para a gente ser feliz. 

O meu sucesso nas redes sociais hoje é por conta da minha humildade, carisma  e a única coisa que eu quero passar para as pessoas é que elas façam do jeitinho que elas gostam, que cada um seja do seu jeito, não tem que copiar a Ana Carolina.

A pessoa tem que se sentir alegre, e quando ela sentir que deve fazer algo, faça. As vezes a gente tá indo por um caminho, mas é bom parar e pensar ‘opa, vou dar um passinho para trás para poder continuar’.