No último domingo (3), em pleno Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, a entrada do Palácio do Planalto se transformou no palco da concretização de um discurso de ódio que vem sendo construído há anos. Enquanto um grupo inflamado pelo fanatismo gritava aos ventos “Bolsonaro, mito”, uma equipe do jornal O Estado de São Paulo foi covardemente agredida com chutes, murros, empurrões e rasteiras.

O ato de violência aconteceu em meio a uma manifestação antidemocrática, que visava demonstrar apoio ao presidente da república, Jair Bolsonaro (Sem Partido). O chefe do executivo, que vive atualmente um dos maiores impasses de seu governo, após a saída do então Ministro da Justiça, o ex-juiz Sérgio Moro, luta para permanecer liderando uma parcela de brasileiros que não conseguem enxergar nada além do que um tweet feito pelo “mito”, ou por um de seus filhos.

Instalou-se na capital federal uma preocupação que transformou uma das maiores crises de saúde pública da história, o crescente número de infectados com a Covid-19, no último assunto na lista de prioridades do Governo Federal.

No meio de toda essa disputa de narrativas, se coloca a imprensa brasileira, que vive atualmente um período extremamente delicado, sendo obrigada a lidar com dois vírus perversos: o novo coronavírus e a desinformação.

O papel da imprensa sempre foi resguardar uma democracia viva, e não nos surpreende que atos como este se transformem em rotina. A agressão praticada por apoiadores de Bolsonaro apenas concretiza o discurso de ódio que vem sendo fomentado pelo próprio desde o início de sua campanha.

É imprescindível revisitar a história do nosso país e compreender que nada de novo aconteceu, vivemos em uma realidade que flerta cada vez mais com o que era visto em meados dos anos 60, e que se alastrou por toda as décadas de 70 e 80, durante o período que ficou conhecido como Ditadura Militar.

Fazer jornalismo vai muito além de apurar os fatos e levar um retrato da verdade até o leitor, envolve também o exercício incansável de observar a realidade e traduzi-la para aquele que aguarda ansiosamente pela novidade, que nem sempre é tão nova.

Se engana quem levanta a bandeira de um jornalismo mais fortalecido no pós-pandemia, o que vemos hoje é um problema que criou não só raízes, como uma cultura massiva de ataque aos trabalhadores da comunicação.

O Com_Texto defende uma imprensa livre, forte, segura e cobra de todas as instituições públicas que se posicionem muito além de uma nota de repúdio, e de fato enxerguem a Constituição Federal de 1988 como um mecanismo de defesa das garantias fundamentais da imprensa.

Talvez seja o momento de lembrar o presidente da Câmara do Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que a Constituição não é um enfeite de estante ou um conto de fadas. Reiteramos que o artigo 220 não começa com “era uma vez…”.

Não há dúvidas que o grande entrave para o mínimo funcionamento da nossa democracia, tem um nome, endereço e cargo de extrema importância: Jair Messias Bolsonaro, endereçado no Palácio do Planalto, e também presidente do Brasil.