A crise no sistema de saúde da capital parece não existir para a administração pública, entretanto, já é realidade na UPA Pascoal Ramos

Texto: Marcos Salesse | Foto: Com_Texto

Apesar de negado pela administração pública de Cuiabá, o colapso na área da saúde já é realidade na rotina de muitos profissionais que estão trabalhando na linha de frente do combate ao novo coronavírus. Na madrugada desta terça-feira (23), o Com_Texto recebeu novas denúncias envolvendo a UPA Pascoal Ramos, que sofre com a falta de monitores e respiradores para atender a população. Além disso, a crescente no número de atendimentos relacionados à Covid-19, fez com que pacientes com o vírusdividissem espaço com outros que não estão confirmados ou não tem a doença. 

Segundo uma profissional, que preferiu não se identificar, no início do mês foi criada uma sala especial para receber casos suspeitos ou confirmados do novo coronavírus, buscando isolar o enfermo de outros pacientes que também estão na UPA. Com a mudança, a ‘Sala de Emergência’, como é chamada o local para atendimento urgentes, passou a ocupar o espaço que antes era destinado ao berçário.

Diantes da falta de espaço, começaram a surgir também falta de equipamentos, uma vez que, do dia para a noite todos os respiradores e monitores foram transferidos para a sala especial – criada para o atendimento de possíveis casos da Covid-19 – deixando a “Sala de Emergência” sem nenhum material para acompanhar o estado dos pacientes. 

“No início do mês transformaram o berçário em ‘Sala de Emergência’, com monitores e respiradores para todos os leitos. Logo depois retiraram os respiradores e monitores para serem utilizados na ‘Sala Especial para Covid’. Então quando chega uma emergência, como já aconteceu, não tem monitor e nem respirador. Recentemente uma paciente apresentou Parada Cardiorrespiratória (PCR), e o médico verificou os batimentos no desfibrilador”, conta a profissional. 

A ‘Sala de Emergência’’ segue sem respiradores e monitores para atender possíveis emergências | Foto: Com_Texto

Ainda de acordo com a fonte, a falta de espaço fez com que pacientes com suspeitas ou com quadros positivos para Covid-19 dividissem espaço com outras pessoas que apresentam outras comorbidades, além de crianças que correm o risco de ser contaminadas, já que em sua maioria estão com a imunidade baixa. 

“Recebemos o plantão e vimos que a ala feminina toda estava com pacientes suspeitos ou quadro positivo da ‘Covid’. Tinham homens e mulheres todos juntos, e o problema não é ser ‘Covid’, o problema é que colocaram juntos de pacientes com outras comorbidades e com crianças. Tem paciente hipertenso, cardíaco e que está esperando para ser transferido, todos correndo o risco de se contaminarem com o vírus, pois suas imunidades estão baixas”, disse. 

Ainda em seu relato, a fonte contou que a falta de um fluxômetro de oxigênio – aparelho utilizado para medir o fluxo de oxigênio dos pacientes – vem fazendo com que os profissionais não consigam dar conta da rapidez com que a doença ataca. 

“Não tem fluxômetro para colocar em pacientes que apresentam falta de ar. Esse aparelho só aparece quando o paciente é transferido ou pior, vem a óbito. Os pacientes estão morrendo por falta de respiradores”, afirmou. 

OS NÚMERO CRESCEM

Segundo o último Boletim Epidemiológico publicado pela Secretaria de Saúde de Mato Grosso (SES-MT), divulgado nesta terça-feira (23), Cuiabá atingiu a marca de 2.914 casos confirmados, sendo o líder isolado no ranking dos municípios. No estado já são mais de 11.000 casos registrados e 423 óbitos. 

Com a taxa de ocupação dos leitos de UTI se aproximando dos 90%, a possibilidade de fechamento total segue em debate entre o prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro (MDB), a prefeita de Várzea Grande, Lucimar Campos (DEM), o governador do estado, Mauro Mendes (DEM) e o Tribunal de Justiça do Estado. 

Mesmo após decisão do juiz da Vara Especializada da Saúde Pública de Mato Grosso, José Leite Lindote, exigindo o fechamento total de ambos os municípios, o prefeito de Cuiabá se mostrou pouco disposto a aderir ao pedido da justiça  e adiantou que deve entrar com recurso contra a decisão do magistrado.

Entre disputas judiciais e incertezas no executivo, a crise causada pela pandemia do novo coronavírus segue afetando profissionais da saúde e a população que depende do atendimento público, gratuito e de qualidade.