Em meio aos movimentos como o #AdiaEnem, o Com_Texto traça um panorama da realidade dos concorrentes do Exame Nacional em Mato Grosso.

TEXTO: Beatriz Passos | Fotos: Com_Texto

Entrar em uma universidade pública é o sonho de muitos estudantes brasileiros, mesmo com diversos fatores que fazem as vivências na universidades serem complicadas, milhares de alunos se inscrevem para realização do Enem, em todo Brasil. Porém, estão essas instituições preparadas para receber esses alunos? Quais são os obstáculos desses jovens? Quem os ajudam nessa caminhada? São questões como essas que fizeram o Com_Texto investigar um pouco dessa trajetória, em 2020, no cenário inédito de pandemia mundial causada pelo Covid-19.

Em maio de 2019, a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) divulgou que a maioria dos seus estudantes era mulher, parda, com idade entre 18 e 24 anos e com renda per capita familiar de até um salário mínimo. Tais dados foram levantados a partir da V Pesquisa Nacional de Perfil dos Graduandos das Instituições Federais de Ensino Superior (Ifes), promovida pelo Fórum Nacional de Pró Reitores e Assuntos Estudantis (Fonaprace) da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). Para a coleta de informações foram entrevistados 28.481 estudantes dos cinco câmpus da UFMT, consultando 68,6% da sua comunidade estudantil.

Cerca de um ano depois, em meio a pandemia causada pelo novo coronavírus, estudantes com perfis parecidos com a realidade da UFMT correm o risco de não terem a oportunidade de pleitear uma vaga no ensino superior. Já que a edição 2020 do principal meio de entrada nas universidades, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), promete acontecer de maneira distópica à realidade da maioria dos estudantes brasileiros.

DEMOCRATIZAÇÃO DO ENSINO

A UFMT foi uma das primeiras universidades a aderir o sistema de cotas sociais, em 2011, antes mesmo da consolidação da Lei 12.711 de 2012, a Lei das Cotas. Ocasionando um quadro de 69% de seus estudantes pertencentes à categoria de baixa renda, além de ter 55% vindos de escolas públicas.

Segundo o conselheiro de Estado de Educação, representante dos estudantes do ensino superior na Câmara de Educação Profissional e Ensino Superior e também graduando de Saúde Coletiva pela UFMT, Vinicius Brasilino, essa realidade ampliou o processo de democratização do acesso à universidade. “A participação de estudantes das redes públicas garantiu com que mais jovens das classes populares tivessem acesso ao ensino superior, podendo dar continuidade ao seu processo de formação e escolarização formal”, disse.

O Conselheiro de Estado de Educação ressalta também as necessidades de manutenção desse acesso, de maneira que não basta apenas a entrada do estudante, mas a garantia da sua permanência no ensino superior.

“O fato desta democratização ter dado acesso aos diferentes perfis de estudantes à universidade ocasionou na demanda pela permanência estudantil, o que a gente chama de assistência estudantil – garantia de benefícios para que o estudante possa estudar com qualidade – e esses meios podem ser bolsas alimentação, moradia. E nesse contexto, o Brasil criou o Programa Nacional de Assistência Estudantil, para dar conta de atender à esses estudantes que têm especificidades e demandas emergentes dentro das universidades”, explicou Vinicius Brasilino.

Porém, as políticas de assistência não conseguem garantir tais benefícios à todos os que necessitam. Na UFMT, em 2020, o orçamento econômico veio com 21% a menos, e para a assistência estudantil foram retirados cerca de 40% da verba.

“Os principais obstáculos que estudantes em vulnerabilidade social enfrentam estão relacionados às políticas de permanência e assistência estudantil. Afinal, a educação vem sofrendo nos últimos anos vários cortes, como a Emenda Constitucional nº 95 que congelou os investimentos em educação, saúde e outras áreas do desenvolvimento social do país”, explicou o Conselheiro de Estado de Educação.

Vinicius Brasilino também vê como prática perigosa aos cidadãos o agendamento da prova do Enem para ainda em 2020. “Observando o movimento da pandemia no Brasil e as ações que o Governo Federal vem tomando, que são muitas vezes contrárias ao que a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem proposto, a realização do Enem não só coloca em vulnerabilidade sanitária milhares de estudantes, como também, o transforma em instrumento de ampliação das desigualdades educacionais e sociais do Brasil”, disse o também estudante da UFMT.

Em razão da pandemia do Covid-19, o Enem 2020 será adiado de 30 a 60 dias, de acordo com Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). A contra gosto do Ministro da Educação, Abraham Weintraub, o Senado aprovou o projeto que adiou o exame, devido a cobranças de organizações, como a União Nacional dos Estudantes (UNE).

“O adiamento do Enem de 30 até 60 dias, mantém o processo perverso desse governo de privilégios, assim como a modalidade virtual do exame. Quem realmente tem acesso à internet para fazer o Enem digital? Quem fará virtualmente, poderá fazer a prova de sua casa com um conjunto de livros e conteúdos ao lado, com condições de ter um melhor resultado na prova? Para mim, o Enem digital reforça ainda mais a meritocracia e condições desiguais de acesso à universidade, é um equívoco”, ressaltou Vinicius Brasilino.

Estudantes em manifestação contra o projeto Future-se. | Foto: Com_Texto

FUTURO E INCERTEZAS

Luiz Antônio está no quinto semestre do ensino médio integrado ao curso técnico em edificações, no Instituto Federal de Mato Grosso – campus Várzea Grande. Com 18 anos, seus planos no início de 2020 eram prestar o Enem e concorrer a uma vaga na UFMT.

“Eu costumava passar em torno de 35 a 40 horas semanais na escola, tudo isso entre aulas, projeto de pesquisa e extensão e grupo de estudo. Esse ano seria o meu último ano do ensino médio, mas agora já estamos nos encaminhando para o terceiro mês de aulas interrompidas por causa da pandemia do novo coronavírus”, revelou o estudante.

Sem aulas desde o dia 17 de março, o estudante declarou que sua rotina mudou bastante. Como passava muito tempo na escola, se organizava para estudar no colégio, e em casa dedicava-se às outras responsabilidades domésticas.

Diferente de outros alunos da sua escola, Luiz Antônio tem acesso à internet em casa, mas, ainda assim preferiu fazer a prova na modalidade física, por segurança. “Eu tenho acesso à internet em casa, o que tem me ajudado bastante nesse processo de adaptação. E devido aos problemas da correção da edição passada do Enem, eu optei pela versão impressa da prova, porque tenho um pouco de incerteza com essa experimentação”, revelou o estudante.

Na edição de 2019 do Enem ocorreram erros de correção, além do vazamento de uma das páginas da prova durante o dia do exame, em 3 de novembro. De acordo com o Ministério da Educação (MEC), foi divulgada uma foto da folha de redação antes do final do exame, já no momento da correção, quem fez a prova com uma determinada cor de gabarito, teve suas respostas corrigidas com base em um gabarito de cor diferente.

Diante de várias dúvidas, Luiz comentou que assim como ele, seus colegas estão muito inseguros. “Tem sido muito comentado nos grupos de turmas sobre o Enem, e tudo é uma grande incerteza. Ninguém sabe como vai ser ou o que pode acontecer, está todo mundo muito apreensivo. Porque o ano está correndo e já perdemos o final de semestre todo. Então estamos ficando para trás sim, comparado aos alunos de escola particular”, revelou.

Sobre os próximos acontecimentos com relação ao Enem, o estudante acredita que o melhor é o cancelamento da aplicação da prova em 2020. “Eu acho as discussões sobre o adiamento do Enem muito pertinentes, porém, ao meu ver, o correto nesse momento seria o cancelamento dessa edição. Porque já foi praticamente primeiro semestre do ano. E as escolas estaduais de Mato Grosso não chegaram nem a começar o ano letivo de 2020, enquanto as escolas particulares já estavam praticamente no fim do primeiro semestre”, defendeu o aluno que faz parte da rede pública de ensino.

OBSTÁCULOS DIFERENTES

Para a professora de biologia da rede estadual de ensino em Mato Grosso, cuja identidade preferiu que não fosse revelada, os alunos da rede pública e da rede particular têm condições intelectuais iguais para prestar o Enem, a diferença entre os dois perfis está nas oportunidades sociais que acabam por privilegiar apenas um dos lados.

“Os alunos de escola pública têm que trabalharem mais para conseguirem uma vaga na universidade, então quando eles conseguem é muito gratificante, porque é todo um universo que eles conseguiram vencer, por isso que intelectualmente eles têm condições tanto quanto um aluno de escola particular, porém em relação à estrutura social eles saem perdendo”, contou a professora que atua há 20 anos na rede pública.

Com experiência no ensino em escolas particulares, a professora ressaltou a diferença dos perfis dos alunos que frequentam escolas pagas daqueles matriculados em instituições públicas.

“Quando dei aulas em escolas particulares, no começo da carreira, os alunos, em sua maioria, eram classe média ou classe média alta. As escolas tinham boas estruturas, como lousa mágica, internet veloz e salas climatizadas. Além do que, grande parte dos estudantes de escolas particulares não trabalhavam, já os meus alunos do ensino público têm duplas jornadas, se estudam de manhã, trabalham a tarde, e se estudam a tarde, trabalham de manhã, em sua maioria em empregos com carga horária pesada”, contou.

A professora defende a educação pública, acredita que apesar das dificuldades enfrentadas por alunos e até mesmo por professores, o ensino gratuito garante demandas que escolas particulares não se comprometem.

“Outra grande diferença entre a escola particular e pública é que são poucas as escolas pagas que têm, no meu conhecimento, ensino inclusivo com alunos PcD (Pessoas com Deficiência). Na escola pública esses estudantes são inclusos em salas regulares. E falando do estado de Mato Grosso, existem também as escolas quilombolas, indígenas e rurais com logísticas diferentes”, salientou.

Atenta a diversidade de perfis, a educadora também se preocupada com o psicológico dos estudantes que pretendem realizar o Enem. “Como todos que estão passando por essa pandemia, os estudantes estão assustados e com medo, de certa forma sem condições psicológicas para fazerem uma prova densa como o Enem”, acredita a professora.

“E nesse momento, o aluno de escola pública estadual somada a essas inseguranças, tem a angústia de não ter iniciado o ano letivo. E o que a Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (Seduc-MT) disponibilizou para eles, que são aulas online e/ou pelo canal da TV Assembleia não é o ideal, eu sei disso porque participo de grupos de conversas com eles, e eles dizem que não tem condições, porque não entendem os conteúdos devido aos problemas de conexão”, revelou a professora de biologia.

As transmissões das videoaulas acontecem via TV ALMT (canal 30.2), com aulas inéditas e reprises durante a semana. As aulas são sobre as quatro áreas do conhecimento exigidas no Enem, sendo matemática, linguagem e suas tecnologias, ciências sociais aplicadas e ciência da natureza e suas tecnologias.

O projeto foi apresentado pelo deputado estadual Delegado Claudinei (PSL), no dia 8 de maio, pela indicação de n.º 1.572/2020, na qual propunha a Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (Seduc-MT) a aplicação de método de ensino a distância para promover aulas virtuais para alunos da rede pública estadual durante a pandemia do novo coronavírus.

Durante as manifestações de 2019 os cartazes ganhavam as ruas. | Foto: Com_Texto

DIMINUINDO BARREIRAS

A Rede de Cursinhos Populares “Podemos +” formada pelo Levante Popular da Juventude ajudou a aprovar em 2019 mais de 100 alunos no Enem. Criada em 2017, em São Paulo, a rede está presente em 50 cidades, distribuídas em 21 estados do Brasil, e tem em sua organização 1600 educandos e 800 educadores. Com componentes voluntários a “Podemos+” reúne pessoas que buscam ajudar jovens brasileiros que são afastados ou excluídos do ensino superior a ingressar em universidades federais ou estaduais.

“As experiências na nossa rede de cursinho estão vinculadas aos jovens da classe de trabalhadores, que são moradores de periferias, jovens estudantes de escolas públicas, jovens mães, e aos que não tem possibilidade de pagar absurdos de mensalidade em cursos preparatórios. Nosso objetivo é com as questões de igualdade mesmo, de facilitar o acesso a universidade, como é o caso do cursinho de escrita acadêmica que serve justamente para aqueles que têm dificuldades em desenvolver trabalhos com critérios acadêmicos”, explicou a Coordenadora da Rede de Cursinhos Populares Podemos e da Frente Territorial do Levante Popular da Juventude, Lorhana Lopes.

Outra ação neste sentido foi o mutirão de ajuda na realização das inscrições no Enem. “A gente precisava fazer com que o máximo de pessoas tivesse acesso. Por isso, movimentamos mais de 800 pessoas, em ação voluntária, para contribuirem nesse processo que é extremamente burocrático. Então, passamos por processo formativo, lemos todas as informações da plataforma do Inep, e depois entramos em contato por telefone com pessoas que preencheram o formulário básico para solicitar a ajuda, além dos outros educandos já inscritos”, disse Lorhana.

Em Mato Grosso, a “Podemos +” atua, desde 2019, em Cuiabá e conta com 42 educadores voluntários. No primeiro ano de curso foram aprovados 3 alunos para entrar na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Em 2020, o processo de mobilização foi interrompido pela pandemia do Covid-19, e até o momento da pausa cerca de 60 jovens já estavam inscritos para participarem das aulas.

Questionada sobre o porquê não continuar com as aulas no formado de Ensino a Distância (EaD), a coordenadora da Rede de Cursinhos Populares Podemos+ em Mato Grosso, Amandla Sousa, revelou que a modalidade seria incompatível com as realidades dos educandos que a rede atende.

“Nós da “Podemos+” não podíamos pensar na manutenção das aulas do cursinho em uma modalidade EaD. Essa não é a realidade da população brasileira. Essa não é a realidade dos sujeitos que nós estamos contribuindo para que acessem à universidade e essa também não é a realidade de Mato Grosso. Nós temos bairros do município de Cuiabá, onde é a situação de vulnerabilidade dos trabalhadores é tamanha que falta por vezes alimentação para esses sujeitos. O que dirá internet”, destacou.

Segundo a coordenadora, A “Podemos+” utiliza da metodologia da educação popular e justamente por isso considera mais importante acompanhar os educandos e suas famílias neste período de fragilidade causada pela crise sanitária e econômica mundial.

“Neste momento nós temos que nos preocuparmos com a vida do nosso povo. Temos que nos preocuparmos em garantir condições de vida digna, e o Enem deve se adaptar à esse processo para que ele não seja mais excludente. Na realidade do nosso povo que é tão diverso, que tem tantas dificuldades, adiar o Enem com base no ano letivo de 2020 é fazer justiça social”, afirmou Amandla Sousa.

NOTA OFICIAL DIVULGADA NO PORTAL DO INEP

Atentos às demandas da sociedade e às manifestações do Poder Legislativo em função do impacto da pandemia do coronavírus no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e o Ministério da Educação (MEC) decidiram pelo adiamento da aplicação do exame nas versões impressa e digital. As datas serão adiadas de 30 a 60 dias em relação ao que foi previsto nos editais.

Para tanto, o Inep promoverá uma enquete direcionada aos inscritos do Enem 2020, a ser realizada em junho, por meio da Página do Participante. As inscrições para o exame seguem abertas até as 23h59 desta sexta-feira, 22 de maio.

*As inscrições foram prorrogadas até o dia 27 de maio.

Saiba mais:

V Pesquisa Nacional de Perfil dos Graduandos das Instituições Federais de Ensino Superior (Ifes).

NOTA OFICIAL | Adiamento do Enem 2020

Rede de Cursinhos Podemos+