A busca pela conquista do pertencimento e do bem estar motivam as mudanças de endereço.

Cuiabá caminha em mão dupla, de um lado o avanço relacionado ao agronegócio e do outro o desapego dos cidadãos provocado pelo contraste de desenvolvimento urbano com outras cidades. Na capital de Mato Grosso, o desejo do futuro, em especial dos jovens, está distante das grandes temperaturas da cidade. Seja pela pouca possibilidade de crescimento em algumas profissões, o clima desconfortável ou pela falta de infraestrutura urbana, as razões para construírem uma vida em outra cidade acompanham o dia a dia dos cuiabanos.

De acordo com o documento divulgado em 2010, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), considerando uma mostra de jovens entre 18 e 29 anos, o Centro Oeste possui uma média de 42,65% emigrantes dentro dessa faixa etária. Ainda, com base no relatório, 44,35% dos jovens com a mesma idade migram dentro da região, enquanto uma média de 50,05% desses jovens são naturais do Centro Oeste. Dados que apontam a relevância do fluxo migratório para pensar as interações sociais em Mato Grosso, estado que compõe o centro-oeste do país.

Na região, segundo o dados mais recentes divulgados pelo Instituto Brasileiro de  Geografia e Estatística (IBGE), a estimativa atual da população é de 3.526.2020 pessoas, com aproximadamente 429.795 mil jovens entre 19 a 29 anos. Já em Cuiabá, vivem cerca de 618.124 mil habitantes, tendo uma projeção de 110.861 jovens entre 19 a 29 anos. Nos dados divulgados, a vida na capital parece confortável, uma vez que ocupa possui 0,785 de Índice de Desenvolvimento Humano Municipal. Porém, é cada vez mais notória a vontade de uma vida fora da realidade cuiabana.

Retrato da movimentação intensa que marca o cotidiano do centro de Cuiabá. | Foto: Com_Texto

ENTRE TRÂNSITOS DE REALIDADES

Para Matheus Ribeiro, Cuiabá não foge muito da vida urbana de uma capital. O jovem de 23 anos, sempre teve uma vida guiada por mudanças. Mesmo nascido em Cuiabá, viveu a maior parte da infância em solos não mato-grossenses. Foi, somente,  na sua juventude que pôde retornar a cidade natal, na qual, atualmente, divide a morada com Niterói, no Rio de Janeiro, onde cursa a faculdade de Direito, na Universidade Federal Fluminense (UFF).

“No Rio e até mesmo em São Paulo o ritmo é realmente mais acelerado do que em Cuiabá, mas não acho que a cidade fuja das características urbanas de uma capital, a geografia por exemplo acompanha a lógica de um grande centro, com seus acessos mais fáceis à bairros centrais e distante de periferias empobrecidas” avalia o estudante. 

Matheus têm passado estadias em Cuiabá, e ainda não tem certeza se voltará definitivamente à cidade. Se de um lado, os laços afetivos o fazem querer voltar, a infraestrutura e altas temperaturas o motivam a construir uma vida em outra cidade.

“Para mim, o clima de Cuiabá influencia totalmente na perda de qualidade de vida, e morando em outro lugar, a diferença é ainda mais perceptível. Além do que, a situação tende a piorar, já que não existem medidas governamentais atuais de defesa da biodiversidade da cidade, nem do estado de Mato Grosso. Por isso, ainda pondero bastante sobre morar definitivamente na cidade ou não” conta o estudante. 

Mesmo com lembranças de tardes em família e memórias de afetividades tipicamente cuiabanas, o estudante de direito entende que a juventude busca novas informações, e com isso identidades afastadas do regionalismo. “Cuiabá ainda mostra resquícios desse processo de isolamento da capital com o restante do país, principalmente dos centros super culturais e de trânsitos de muitas informações. Acredito que esse seja um dos fatos que impulsionam a juventude a sair para conhecer outras realidades e vivências que muitas vezes são mais fáceis de acessar nas outras capitais do país”. 

Matheus lembra que o fluxo de migração em Cuiabá é contínuo, porque existem pessoas partindo assim como muitas chegando. “Outra coisa que é perceptível é a quantidade de pessoas que chegam na cidade para trabalhar, até mesmo para estudar, uma vez que é polo de uma universidade federal que é referência em algumas áreas, isso ao meu ver, traz algumas consequências como novos olhares sociais e culturais. 

INFRAESTRUTURA E BEM ESTAR

Enxergando a cidade pelo olhar da psicóloga Jheniffer Aline Silvino, a infraestrutura de Cuiabá ainda tem muito o que melhorar. “Na minha opinião aqui é sim um bom lugar para se morar, mas, como em toda cidade, tem seus prós e contras. Por ser a capital de Mato Grosso, acho muito atrasada em termos de estrutura, afinal, quando se anda pelas ruas dá para ver que não é uma cidade planejada, falta muita coisa para melhorar”. 

O atual plano diretor de Cuiabá, registro que direciona ações relacionadas ao desenvolvimento urbano, tem diretrizes válidas até 2020. Com propostas divulgadas em 2007, segue sendo o principal aporte dos representantes políticos para pensar estratégias para a cidade. Entre as demandas do documento está o desenvolvimento da infra-estrutura urbana, no qual “trata da reestruturação do sistema viário com a implantação de vias urbanas pavimentadas, pontes, calçadas, ciclovias, redes de distribuição de água e captação de esgotos, drenagem, energia elétrica e iluminação pública, proporcionando integração urbanística e mobilidade urbana para a área”, como descrito no documento. 

Vinda do Ceará ainda criança, Jhenifer estabeleceu suas relações pessoais na cidade desde cedo. “Vim para Cuiabá realizar um tratamento de um câncer, e no processo eu e minha família acabamos nos mudando para cá. A adaptação foi super tranquila, logo conhecemos os vizinhos e fizemos amizades, com as quais seguimos até hoje”, explica.

Embora tenha um carinho muito grande pelos relacionamentos nascidos na cidade, a psicóloga não pensa em continuar com a vida cuiabana. Segundo ela, o clima muito quente e a poluição são os principais fatores de desejo da mudança. “O clima é algo que até hoje eu não acostumei e que não gosto, sou do Paraná e lá o clima é completamente diferente. Por isso, não penso em morar aqui para sempre. Inclusive eu e meu marido estamos na parte das documentações para começarmos uma nova oportunidade em outro país”, disse Jhenifer.

Ainda em 2020, Cuiabá registrou temperaturas recordes, ultrapassando a marca de 45ºC em diversos dias. O calor elevado não foi a única consequência do fogo que atingiu 1,7 milhão de hectares do estado de Mato Grosso, durantes vários dias os cuiabanos puderam ver um céu coberto de fumaça e sentelhos oriundos dos incêndios. 

PERTENCIMENTO

Nascido por meio do encontro entre um baiano e uma carioca, o cuiabano, ex morador da periferia de cuiabá, no bairro Pedra 90, Jared Rocha acredita que as temperaturas altas de Cuiabá se expressam no calor humano e espírito hospitaleiro dos cidadãos. “Cuiabá é uma cidade que se diferencia nas relaçõe pessoais, nela o calor humano está presente sempre, além do calor no termômetro”, disse o jovem. 

Um ano morando fora de Mato Grosso, ele relembra os afetos que o conecta com o município. “Vivi 22 anos da minha vida em Cuiabá, um período longo, e nele construí uma base muito firme e importante de amizades. Dessa forma, o carinho que tenho pela cidade se torna muito grande, já que amo os laços afetivos que tenho nela”, explica.

Jared faz parte dos 44,35% de jovens que migram dentro do próprio Centro Oeste, ele  mudou-se para Goiânia, capital de Goiás, seu atual endereço. Na nova morada a principal diferença observada pelo jovem está no desempenho profissional, onde encontrou um universo bem mais aberto para sua atuação. 

“Eu sou formado na área de comunicação, conclui a formação no final de 2017, em Cuiabá,  e somente no final de 2018 que consegui me inserir no mercado. Então, para quem atua em áreas afastadas do agronegócio, como é o meu caso, é bem complicado se desenvolver profissionalmente. Quando ainda estava em Cuiabá, em determinado momento pareceu que eu já tinha feito tudo que podia na cidade e me vi esgotado, sentindo que já não tinha mais para onde crescer”, conta Jared. 

Há pouco mais de uma ano morando em Goiânia, o publicitário não se percebe mais integrado ao cotidiano cuiabano. Dessa maneira, já não pensa mais em voltar para a capital de Mato Grosso, até considera morar em novos lugares, porém, o retorno fica sempre distante de ser uma possibilidade.  

“Eu vejo Cuiabá como uma sociedade muito conservadora. Tem uma galera que tenta movimentar a cena de arte, cultura, comunicação, mas, é sempre muito difícil, justamente pelos parâmetros sociais muito retrógrados. Quando viajo para visitá-la, a sensação é sempre a mesma , de não pertencimento, tudo se tornou diferente e fora da minha realidade. Me sinto totalmente perdido e percebo que a cidade já não é o meu espaço”, revela Jared Rocha.

Imagem do Centro de Cuiabá
As estruturas do passado e as visões do futuro se misturam na capital do sol. | Foto: Com_Texto

EM BUSCA DE OPORTUNIDADES

No final de 2011,  Marya Santos chega a Cuiabá em busca de sucesso profissional. Natural do litoral da Bahia, na cidade Valença, a personal trainer acredita que a cidade é um bom lugar para se viver tanto no âmbito profissional como pessoal. “Eu sou muito grata pelas oportunidades que tive em Cuiabá. Na minha trajetória com a cidade, primeiro veio a decepção dos planos iniciais, mas em 2014 consegui ter dedicação a minha profissão de formação e tenho recebido muito reconhecimento e projeção profissional”, conta a baiana que vive pouco mais de 8 anos em solos cuiabanos. 

Embora goste muito de morar na cidade e não pense em ir embora tão cedo, Marya Santos reconhece que seu apego está diretamente relacionado ao modo de vida que conquistou. “Tenho consciência que não vivo a realidade mais cruel de Cuiabá, embora não seja rica, não me encontro em regiões periféricas que enfrentam dificuldades de estruturas sociais básicas. Mas, acredito que nesses casos o problema seja de grau muito maior, não é exclusivo, faz parte de planos políticos desonestos e conhecidos na nossa sociedade desigual”, afirmou a personal trainer.

Entre as novas vivências de Marya, a culinária cuiabana é a mais bem quista. O pequi, fruto típico da região, já faz parte do seus pratos preferidos. “Eu adoro comer pequi, com certeza o maior hábito adquirido na cidade. Além do que é memória da minha chegada, pois foi o primeiro prato-típico que comi, e foi em um almoço de boa vindas”, conta.

Questionada sobre o futuro e se gostaria de viver em outro lugar, Marya Santos respondeu: “Não tenho vontade de morar em outro estado ou cidade no Brasil, caso me mude, gostaria de morar em outro país. Eu percebo um apelo muito grande da mídia mostrado o estilo de vida das grandes capitais e penso que seja muito difícil alcançar o que é vendido pelos meios. Então, permaneço com o pé no chão buscando um futuro onde já tenho um certo conforto, que não teria em outro lugar, como de fato não tive na minha cidade natal”.

Os relatos exemplificam alguns anseios de quem vive em Cuiabá, que é uma cidade marcada pela vontade de progresso por seus habitantes. A terra de histórias que contam sobre os rumos do país, ainda guarda na essência partidas em busca de condições melhores, como também acolhimento para os que chegam. Por isso escrevi esse texto, cheguei aqui ao lado de Marya Santos – minha mãe – e junto com ela descubro, ao longo dos anos, motivos para ficar, assim como a vontade de partir. Daí, surgiu essa reportagem, cercada de um certo perfil social, eu, Beatriz Passos, quis saber o que motiva a juventude a não criar raízes nesse lugar já conhecido e no qual estão seus familiares. 

EM TEMPO: Os dados utilizados pela reportagem correspondem à pesquisas divulgadas em 2010. O uso dessas informações, que apresentam uma janela de tempo tão significativa, é devido ao adiamento de pesquisas que seriam realizadas em 2020. Por causa da pandemia da Covid-19, medidas sanitárias impediram o curso normal dos órgãos prestadores dos serviços de coleta de dados sobre os perfis populacionais. Para saber mais clique aqui

*Colaborou: Marcos Salesse