Enfrentando dificuldades e sobrecargas, profissionais de imprensa de Mato Grosso relatam rotina intensa na cobertura da pandemia do novo coronavírus.

“É difícil ter um dia em que eu consiga preservar meu horário de almoço sem ter nenhuma demanda”, contou Celly Alves, assessora de imprensa da Prefeitura de Cuiabá, ao falar sobre sua rotina de trabalho durante a pandemia da Covid-19. Entre um telefonema e outro, a profissional ainda precisa criar estratégias para conciliar suas funções com os cuidados da filha, a pequena Laura, de apenas um ano e quatro meses. Compartilhando o mesmo sentimento de mudança na forma de lidar com o trabalho, a repórter Safira Campos também se diz afetada ao recordar dos momentos iniciais da pandemia, “No meu primeiro final de semana de folga, lembro de ter desligado o computador e chorando de cansaço, e também de ler tanta coisa ruim acontecendo”, disse. 

Ambos os relatos fazem parte da rotina produtiva de muitos profissionais de imprensa que estão atuando frente a uma das maiores crises de saúde da história. Seja nas redações dos jornais e sites, ou nos escritórios das assessorias, a sobrecarga e o acúmulo de tarefas marcam o dia a dia de quem segue produzindo em ritmo acelerado para levar apurar, escrever e entregar informação para o cidadão. 

Segundo um levantamento feito pelo Com_Texto, em março deste ano foram mais de 1100 matérias publicadas no primeiro mês de cobertura em quatro dos principais sites de notícias presentes em Mato Grosso, além do portal oficial da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT). Por de trás de todo este fluxo de notícias estão comunicadores que precisam lidar com uma realidade de medo e pressão, muitas vezes impostos não só pelo novo vírus, como também pela conjuntura política e social que a crise potencializou. 

UMA PROFISSÃO DE RISCO

Durante os últimos meses não foram poucos os exemplos das dificuldades enfrentadas pelos profissionais de imprensa. No dia 21 de abril, uma equipe do Programa da Gente, da televisão Brasil Oeste (TBO), em Cuiabá, formada pelo repórter Jean Borsatti e o cinegrafista Julinei Ribeiro, foi agredida por três homens em frente ao Hospital Universitário Júlio Müller, no bairro Santa Helena. 

Segundo o próprio repórter, em uma publicação nas redes sociais, três homens começaram uma série de agressões pois suspeitavam que o repórter estivesse filmando uma reportagem que criticava a gestão do atual presidente da república, Jair Bolsonaro (Sem Partido). 

Após o acontecimento, a equipe chegou a registrar uma representação contra os agressores, que acabaram detidos no momento ainda no local onde o repórter tentava produzir a matéria. O caso segue sendo acompanhado pelo Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso (Sindjor-MT), que pediu abertura de inquérito contra os três homens acusados. 

Para além dos casos de violência, a comunicação mato-grossense também viveu dias de luto. Em agosto foram duas mortes confirmadas por Covid-19, sendo do profissional de audiovisual Evandro Birello de Lima, e do cinegrafista Evandro Cruz.

Os óbitos pela doença agravam a situação não só dos profissionais do estado, como de toda o mundo. Segundo um levantamento feito pela Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), observando a situação na América Latina, ao menos 171 jornalistas morreram por coronavírus até 19 de agosto, esse número é maior do que o de vítimas de violência institucional, narcotráfico e terrorismo registradas pela FIJ durante o ano passado. É válido ressaltar que o resultado desta estatística pode ser ainda maior por conta dos casos subnotificados. 

Diante deste cenário de receios e incertezas, antigos problemas ganham novas configurações e voltam a cercar o cotidiano dos profissionais de imprensa, seja na hora de conseguir acordos trabalhistas, melhorias nas práticas que garantam segurança e também formas de contornar a pressão sofrida durante a rotina de trabalho. 

PESQUISA RETRATA CENÁRIO DAS REDAÇÕES

Na pesquisa realizada pelo Departamento de Saúde da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), entre 20 de maio a 10 de junho de 2020, é possível enxergar as disparidades nas condições de trabalho que pandemia Covid-19 provocou nas redações de imprensa de todo o país. Segundo dados do levantamento, entre 448 jornalistas, cerca de 75,2% estão realizando suas atividades em domicílio, enquanto 24,8% permanecem trabalhando presencialmente, ao passo que 75,2% não tiveram sua carga horária reduzida, contra 24,8% que começaram a trabalhar por menos horas. 

Outros dados relevantes sobre essas adaptações é que 79,2% dos participantes da pesquisa disseram que na sua instituição de trabalho não houve casos de demissão, já outros 20,8% relataram situações de desligamento profissional. Tais dados podem expressar um cenário estável de trabalho para os profissionais da imprensa, pelo menos no que se refere aos acordos de trabalho.

Contudo, no cenário de calamidade pública, não é apenas a manutenção dos acordos que garantem uma segurança eficaz no trabalho. Preocupações como medidas de proteção à transmissão do vírus e isolamento social passaram a fazer parte das exigências, e sobre isso os dados revelam que 79,4% das empresas/organizações têm garantido as condições de saúde e segurança para seus trabalhadores.

 Porém, quando questionados sobre possíveis melhorias nas práticas adotadas pela empresa, 47,7% identificaram que poderiam haver melhoras, 26,5% não souberam avaliar e 25,8% responderam não haver melhorias para serem feitas. Nas redações dos participantes, 80% não registraram casos de Covid-19, a maior medida de segurança adotada foi o afastamento preventivo, atingindo 70,4% entre as respostas. 

Nesse panorama atípico, a pesquisa aponta que 55,5% dos jornalistas sentiram um aumento na pressão pela entrega de trabalhos, que resultam em quadros de estresse, cobrança por resultado, sobrecarga e acúmulo de tarefas. Outros 35,1% seguem com a rotina cotidiana, e 9,4% não sabem avaliar. 

Todos estes dados foram levantando dentro da pesquisa “Covid19 Entre Jornalistas e Condições de Trabalho”, realizada pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), com jornalistas espalhados pelo Brasil. Responderam à pesquisa 457 profissionais de comunicação, Mato Grosso está presente com 18 jornalistas participantes. Para conferir o levantamento na íntegra clique aqui

ACORDOS COLETIVOS E CIRCUNSTÂNCIAS EM MATO GROSSO

Segundo o presidente do Sindjor-MT, Itamar Perenha, o sindicato atuou para que as consequências da pandemia, no primeiro instante, fossem as menos gravosas possíveis, já que no começo, as empresas preferiram reduzir o quadro de trabalhadores. “Os acordos mediados pelo Sindijor foram firmados com relação ao afastamento dos grupos de riscos em home office, negociação de remuneração e redução da jornada de trabalho. Conseguimos atender essas demandas com cerca de 50% dos envolvidos, porém alguns jornalistas preferiram fazer de maneira individual e muitos não foram respeitados, chegando a ter redução de 70% do salário”, afirmou. 

Para Itamar, a redução de carga horária é um tema complexo, uma vez que não é possível ter controle exato dentro das urgências provocadas pela Covid-19.

“A redução de jornada aparentemente existe, mas ela tem um baixo nível de controle. As empresas mais organizadas até conseguem manter um monitoramento efetivo, o que não é uma realidade geral, só que ainda assim a lista de tarefas se mantém alta”, explicou o presidente.

Ou seja, por mais que o profissional tenha a carga horária reduzida, suas atividades continuam as mesmas, o que resulta em período menor para realizar o trabalho diário, ou até mesmo o prolongamento do horário de serviço, ultrapassando o acordado. 

A pandemia apresentou diferentes dificuldades para os profissionais de imprensa, seja para os que atuam com meios online, televisivos ou até mesmo nas rádios. “Para os veículos, nos quais os jornalistas precisam montar pauta, procurar personagens, editar conteúdos, a complexidade é maior, porque o profissional está montando a pauta apenas ouvindo e se comunicando por celular, aos que precisam fazer a cobertura externa não cabe muito tempo e precisam de cuidados redobrados, já nas rádios os jornalistas estão usando recursos de edição em casa e enviando para a montagem do programa”, relatou.

Logo, a infraestrutura de trabalho também passa por adaptações, o jornalista que vem trabalhando em domicílio precisou ter em casa aportes eficazes para realizar o trabalho, situação que segundo o presidente do Sindjor, vem sendo monitorada pela organização. “Houve muito improviso nessas situações, só que onde o sindicato recebe denúncias que não está ocorrendo apoio por parte da empresa, está sendo feita a cobrança para que ela providencie”, falou. 

Mesmo com ressalvas, o Itamar acredita que o home office seja eficaz nesse momento de pandemia, já que também foi acordado que os trabalhadores nessa modalidade terão auxílio para custear o consumo de energia, porém não receberão o vale transporte no período de trabalho em casa. “O que a gente consegue perceber é que existe certa flexibilidade no home office, mas também é visível que para algumas mulheres essa situação é de acúmulo de funções do trabalho doméstico com a rotina profissional”, completou.

A fala do presidente vai ao encontro do relato da rotina tripla da assessora Celly Alves, que fala sobre a  dificuldade para conciliar os afazeres domésticos, os cuidados com a filha e o trabalho. Ainda segundo a profissional, esta realidade é presente na vida de outras colegas de profissão, “Já é difícil para quem tem alguém que ajude em casa, e para as mães que moram só é pior ainda, conheço jornalista que é mãe solo e que está tendo muito mais dificuldade. Vejo que a sobrecarga maior sempre recai sobre a mulher”, contou. 

Outro ponto que chama atenção é o aumento da demanda de trabalho, que fizeram com que as redações contratassem mais profissionais, contudo, algumas deram preferências à estagiários ou à outros vínculos que não são empregatícios. Mas, para reivindicar alguns acordos é necessário que o jornalista esteja com contratos regularizados com a empresa, o que tem sido um obstáculo. 

A garantia de direitos por meio da CLT continua sendo um impasse na vida de muitos profissionais de imprensa. | Foto: Com_Texto

“Tem situações em que o jornalista está contratado como Microempreendedor Individual (MEI) e a empresa exige documento como atestado médico, o que não é permitido, uma vez que essa relação é de contratação de serviço de empresa para empresa. Estágio também tem sido um meio das empresas se esquivarem, porque os estagiários recebem menos do que o piso, tem relações de trabalho com a empresa, trabalham mais e não reclamam. Isso tudo dificulta a negociação e legislação efetiva”, evidenciou o presidente do Sindjor.

O QUE FICA NO FIM DO DIA

Apesar de todos os percalços impostos pela atividade, as repórteres Celly Alves e Safira Campos, que abriram esta reportagem com os relatos de um cotidiano intenso, afirmam que ainda se sentem contempladas pela profissão. “Tento sempre lembrar que estou prestando um serviço de utilidade pública, isso é o que me dá esperanças. De um lado estamos fazendo um serviço bem feito e de outro combatendo o desserviço, a desinformação. É uma batalha bem grande”, disse Celly. 

Para Safira as experiências que a profissão proporciona são uma de suas maiores forças motriz para seguir atuando na área. “Sou muito grata pelas oportunidades que a profissão me dá, e são muitas, já vivi coisas boas e ruins que outra profissão não conseguiriam me proporcionar, e sou grata por tudo isso no final das contas”, concluiu a repórter. 

Já para o presidente do Sindicato, o mais importante diante todo o panorama de crise é a união da classe para reivindicação de melhorias e manutenção de direitos já conquistados, como é o caso do piso salarial, “Os profissionais precisam estar unidos”, afirmou.