Texto: Marcos Salesse | Imagem: Reprodução

Em meio à crise provocada pelo avanço da Covid-19, novos projetos surgem com a missão de auxiliar famílias invisíveis aos olhos do Estado.

Seja na região central ou nos bairros mais afastados, não é difícil encontrar relatos de pessoas que encontram dificuldades para se alimentar. Mesmo com o slogan de “cidade mais humanizada”, Cuiabá vive um cenário onde cresce cada vez mais o número de indivíduos em situação de vulnerabilidade social. Em tempos de pandemia, e com o comércio parcialmente fechado, muitas famílias perderam suas principais fontes de renda, e se veem sem perspectivas mesmo diante de uma possível reabertura.

Atualmente, na capital existem mais de 1400 famílias em situação de vulnerabilidade, segundos os números do programa Pró Família, administrado pela Secretaria de Estado de Assistência Social e Cidadania (SETASC). Esse contingente representa aproximadamente 20% do total de famílias cadastradas no programa em todo o estado.

Com este cenário estabelecido antes da chegada do novo coronavírus em território mato-grossense, medidas de auxílio emergências passaram a ser vistas como essenciais para amenizar o impacto causado pelo vírus.

Mesmo com ações como o “Auxílio Emergencial”, do Governo Federal, e a campanha “Vem Ser Mais Solidário-MT”, do Governo Estadual, os esforços ainda parecem ser insuficientes diante da dimensão do problema. Pelo menos é o que diz Jan Moura, gestor cultural e integrante da Campanha Urgente LGBT+, que oferece auxílio especial para a população LGBT+ cuiabana.

“Essas mobilizações dos governos são essenciais, porque o socorro de voluntários é muito pequeno diante de toda a problemática. A gente precisa ter esses socorros imediatos, mas só vamos conseguir de fato minimizar tudo isso com políticas estruturantes e sistemáticas. Precisamos de outras ações que possam realmente fazer a diferença na vida dessas pessoas, não só um marmitex ou um sacolão”, afirma o gestor.

Puxando a campanha ao lado do Grupo Livremente, Coletivo Mães pela Diversidade e da Comissão de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Jan conta que é na rua, no contato direto com essa população vulnerável, que se entende a complexidade desta questão.

“A gente começa a perceber que as nossas dificuldades são bem pequenas diante de tantas outras dificuldades que estão lá fora. Na rua a situação é bem complexa, existem necessidades de todas as ordens, inclusive não só de pessoas em situação de rua, mas de muitas outras que tem moradia e acabam indo para rua coletar alimento e assim ajudar a família”, diz.

Até o momento, a campanha já auxiliou 59 famílias LGBT+ e conta com outras 69 na fila de espera. Com um cadastramento online aberto, o grupo recebe diariamente diversos pedidos de ajuda, que muitas vezes vão além dos alimentos. Entre o quadro de voluntários, a ação possui psicólogos e advogados que propõe atendimentos psicológicos e jurídicos para essa população.

“No nosso cadastro perguntamos se a pessoa está precisando de outros tipos de auxílio, para além dos alimentos. Algumas pessoas inclusive pedem apenas essa outra ajuda, e isso é muito interessante porque mostra que essas pessoas não possuem nenhum lugar para recorrer, e quando abrimos esse canal ela realmente vem. Estamos vivendo um momento muito delicado, então é urgente esse tipo de socorro e assistência para fazer o acolhimento dessas pessoas”, completa o gestor.

“A FOME É UMA DOR QUE A GENTE NEM CONSEGUE MENSURAR”

“Nós somos muito sensíveis com a fome das pessoas, que é uma situação que não tem como passar. Muitas não têm mais a possibilidade de ganhar dinheiro para matar a fome. Nós somos privilegiados por nunca ter passado fome, mas temos a sensibilidade de que muitas pessoas passam”, diz Lucyomar França Neto, assessor jurídico e um dos idealizadores do ‘Projeto Cuiabraça’.

Vem dessa sensibilidade a força de vontade de grande parte dos voluntários do projeto, que já beneficiou mais de 350 famílias em Cuiabá e Várzea Grande. A ideia partiu de Lucyomar e logo se espalhou para outras nove pessoas que hoje compõe o quadro fixo de voluntários.

“Descobri que algumas vizinhas estavam passando dificuldades, e consegui ajudar elas. Com isso, fiz uma publicação no meu Facebook dizendo que qualquer pessoa que estivesse passando por necessidades poderia entrar em contato comigo. Na primeira semana, cinco pessoas me procuraram e eu consegui ajudar. Depois mais 20 pessoas vieram falar comigo, aí juntou a minha angústia com a de uns outros amigos e resolvemos criar o projeto”, conta o assessor.

Projeto Cuiabraça realizando uma das preparações feitas em 2020 para entrega de alimentos.


A ação, que já passou por bairros como Renascer, Terra Prometida, Barreiro Branco, Dr. Fábio, Jardim Florianópolis e outros vários, fez com que Lucyomar percebesse que muitas pessoas permanecem invisíveis aos olhos do Estado, uma vez que, uma parte das ações propostas pelos governos não chegam em quem mais precisa.

“O que a gente também começou a perceber com o tempo é que essas ações não estão chegando para quem mais precisa. Todo voluntário vai com duas cestas a mais na hora de fazer a entrega, e os bairros são muito distantes, tem pessoa que não tem acesso à internet para preencher formulários. Então muitas vezes quando vamos fazer uma entrega, a pessoa compartilha que tem uma vizinha passando ainda mais dificuldades”, afirma.

Em uma dessas entregas, o assessor conta que conheceu uma idosa de 101 anos, que cuidava de um filho de 69 anos. Segundo Lucyomar, esta senhora não estava inscrita em nenhum programa do governo, e só chegou até ela pois um vizinho comunicou que ela estava passando por dificuldades ainda piores.

“Tivemos o caso de uma senhora de 101 anos que tem um filho de 69 anos com transtornos mentais, nós conhecemos ela quando fomos fazer uma entrega e nos avisaram que ela estava numa situação difícil, e essa senhora por exemplo não está inscrita em nenhum programa de auxílio do governo. São pessoas invisíveis”, completou.

PODE AJUDAR? SAIBA COMO

Durante essa matéria citamos dois projetos que seguem atuando em Cuiabá e Várzea Grande. Com o crescente número de pedidos de ajuda, ambos continuam na busca por doações de cestas básicas, itens de proteção individual e materiais de higiene pessoal. Dessa forma, a contribuição de toda a comunidade se faz ainda mais necessária.

Para colaborar com a Campanha Urgente LGBT+, basta acessar o perfil oficial do Grupo Livremente e agendar a entrega da sua doação. Caso o doador faça parte de um grupo de risco e não tenha condições de comprar ou separar a sua doação, o grupo também aceita contribuições em dinheiro. Para saber mais detalhes do projeto, acessar os dados bancários para doação em dinheiro e outras informações, clique aqui.

Assim como a ação do Grupo Livremente, o Projeto Cuiabraça também aceita doações de materiais e contribuições em dinheiro. Todas as informações sobre cadastramento de voluntários, doações e outros detalhes do projeto, você encontra no perfil oficial do grupo, clicando aqui.

É válido ressaltar que os coletivos também necessitam de pessoas dispostas a colaborar não só com doações, mas também se dispondo a atuar como voluntários. Acesse a página oficial destas ações e saiba como se voluntariar.

CONHEÇA OUTRAS REALIDADES

No último mês o Comunicast, projeto de extensão de alunos de Comunicação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), lançou um novo podcast chamado “Vida em Quarentena”. Discutindo os assuntos que perpassam a rotina pós-coronavírus, o programa publicou na última semana o episódio “Quarentena e Voluntariado”, abrindo espaços para outros mundos e novas histórias.

Se você chegou até aqui e gostaria de se aprofundar ainda mais na relação entre a quarentena e os trabalhos voluntários, cliquei aqui e ouça agora o episódio completo.