Texto: Beatriz Passos e Marcos Salesse | Imagens: Com_Texto

Mesmo diante do crescente número de casos da Covid-19, o Ato aconteceu e ocupou duas das principais avenidas da cidade com gritos de “Fora Bolsonaro”

Entre o colorido dos cartazes e os tons de azul escuro do uniforme da Polícia Militar, manifestantes foram às ruas de Cuiabá, neste domingo (7), cobrar o fim do governo de Jair Bolsonaro (Sem Partido) e das ações consideradas fascistas, feitas por ele e seus apoiadores. Organizado por um evento no Facebook, o ato reuniu aproximadamente 300 pessoas, segundo dados da PM, e passou por duas das principais avenidas da capital. 

Cercado por forças militares, como a 20ª Companhia de Força Tática, o Batalhão de Operações Especiais (Bope), Batalhões de Trânsito, Cavalaria e Rotam, o ato começou na praça Alencastro, local que abriga a Prefeitura de Cuiabá. Após falas de movimentos sociais, militantes e manifestantes, o ato seguiu em direção à Avenida Getúlio Vargas, onde a passeata começou a ganhar corpo. 

A força policial se mostrou presente em todos os momentos da manifestação. Em alguns momentos o número de militares impressionava. |
Foto: Com_Texto

Diante da necessidade do distanciamento social, devido ao crescimento diário do número de pessoas infectadas com o novo coronavírus em território cuiabano, os presentes se organizaram em filas, com o objetivo de manter uma distância considerada segura entre os participantes. 

Assim que os primeiros passos foram dados, os gritos de “fora Bolsonaro”, “racistas, fascistas, não passarão” e “não acabou tem que acabar, eu quero o fim da Polícia Militar” logo foram abafados pelo ruído de um helicóptero da PM, que acompanhava o protesto desde a concentração. É válido ressaltar que em diversos momentos, era possível ver um militar portando uma arma de fogo logo na porta do transporte aéreo. 

A caminhada seguiu pacífica, sem nenhum registro de atos violentos e com a forte presença de militares. Já atravessando a Isaac Póvoas, os manifestantes iniciaram um movimento que vem sendo visto em vários outros protestos pelo Brasil, nos quais todos os participantes deitam na rua e seguem por aproximadamente um minuto em silêncio, como uma forma de denunciar os recentes casos de violência policial.

Já se aproximando do fim da manifestação, as orientações eram: comecem a dispersar e sigam em segurança sem cair em provocações. Antes mesmo de chegar na praça Alencastro, onde o ato iniciou, os organizadores já manifestavam a necessidade de uma dispersão rápida. 

DIFERENTES REIVINDICAÇÕES

Embora o ato organizado em Cuiabá fosse centrado no “Fora Bolsonaro”, existia uma diversidade de motivações para os manifestantes estarem presentes. No caso da manifestante, Joana Fernanda, as razões eram a defesa da democracia e da vida da população do Brasil. 

“Desde que o Bolsonaro foi eleito, com todos seus atos absurdamente anti democráticos e toda a situação que a gente tá vivendo de pandemia, me fizeram participar do ato hoje. Além de todo o descaso com as vidas negras, com as vidas de toda a população, é uma situação que não dá mais”, revelou Juliana. 

A presença expressiva de policiais deixou a manifestante apreensiva com a possibilidade de confronto. “Mesmo estando tranquilo eu fico receosa de alguém fazer alguma coisa, porque tem muito policial, então fico com medo de alguma coisa acontecer. Por isso, eu acho que a organização deveria estar falando mais sobre segurança, no sentido de informar como nos protegermos”, contou a manifestante. 

Sentimento compartilhado por outra participante do ato, Suellen Gonçalves, que ressaltou a falta de preparo em relação à segurança, para ela seria necessário um suporte de defesa dos manifestantes como proteção em caso de embate mais acirrado. 

“Como a gente se organiza com os policiais? Como se organiza para ir para às ruas? Há técnicas e questões que são muito próprias de uma manifestação desse tamanho, mesmo que em Cuiabá esteja pequena. Falta uma diretriz para entender o que é um movimento desses, não é só se juntar”, ressaltou Suellen. 

A manifestante ainda apontou algumas técnicas de defesa que não encontrou no ato. “Penso em estratégias como ter contatos com advogados populares, porque se gente chega a ser preso com quem que a gente fala? É preciso entender um pouco sobre racismo institucional, também, já que não somos um só e os tratamentos em um ato como esse são diferentes. Acho que falta racializar e caracterizar diferenças entre  homens e mulheres”, disse Suellen Gonçalves.  

Com cartazes variados, os manifestantes já se organizavam respeitando um certo distanciamento. | Foto: Com_Texto

A integrante do Fórum de Mulheres Negras de Mato Grosso, Glória Maria, revelou que a sua razão de ir ao ato é a defesa das vidas dos povos estrangeiros. Segundo ela, é o seu direito expressar seu sentimento de amor pelo país que a acolheu. 

“Neste momento de pandemia, os governos estão aproveitando para nos tirar a vida. Então nós não ficaremos calados, vamos insistir em defender nossos direitos. Nós temos esperança de que tudo será de acordo com o jeito como reagirmos. Se estivermos unidos, firmes, fortes, esperançosos e procurando saídas coletivas, nós saíremos de tudo isso”, explicou Glória. 

Manifestando contra o governo Bolsonaro, a representante do Fórum, que também é imigrante, salientou a defesa dos direitos dos povos que chegam no Brasil e não são assistidos. 

“O governo Bolsonaro tem afetado negativamente a vida dos bolivianos imigrantes no país, nós não temos vez, nem voz. Somos muitos os estrangeiros que, agora com todas as dependências da polícia federal fechadas, não conseguem organizar sua documentação e assim não temos sequer o  direito ao auxílio emergencial”, explicou a manifestante.

“Os imigrantes dependem muito da bondade e solidariedade da população cuiabana e matogrossense, pouquíssimas são as ações do governo estadual, municipal e piores ainda as do governo federal. Então esse governo nos afeta, não nos quer e não nos enxerga. Nós somos um dos grupos mais invisibilizados e que sofrem diretamente toda a situação de desrespeito aos direitos humanos”, destacou Glória Maria.

DEBATE RACIAL

No trajeto final, durante três minutos, a presidente do Instituto de Mulheres Negras em Mato Grosso (Imune), Antonieta Costa, tomou a fala e lembrou das lutas e desigualdades da população negra. 

“Basta de racismo, basta de discriminação, nós mulheres negras não aceitamos mais, nunca nos calaram e nunca vão nos calar. Precisamos unir as nossas forças contra essa necropolítica, não aceitamos esse governo que nos mata, é preciso uma política antirracista”, trecho da fala de Antonieta Costa. 

A presidente do Imune ainda levantou questões sobre a situação das desigualdades raciais na região de Mato Grosso e dados nacionais sobre as vidas das pessoas negras. 

“As mulheres pretas na região centro-oeste estão em pior estado de exclusão, daqui 23 minutos mais um negro irá morrer neste país. Por isso, não ao racismo, não ao governo Bolsonaro, vidas negras importam”, outro trecho da fala de Antonieta Costa. 

Como em todo os atos espalhados pelo Brasil, o assassinato de George Floyd foi lembrado,  e manifestantes fizeram 30 segundos de silêncio, deitados no chão , representando a cena de violência policial que causou a morte do homem negro norte-americano. 

A morte de George Floyd foi o estopim para uma série de protestos contra a violência policial e a estrutura racista que ocasiona mortes de pessoas negras nos Estados Unidos, como em todo o mundo. O movimento se espalhou por diversos países, e aqui no Brasil levou cidades brasileiras às ruas, porém com organizações diferentes, como antifascismo, fora Bolsonaro e também a bandeira do antirracismo.

A ato seguiu pela Avenida Isaac Póvoas enquanto os manifestantes gritavam palavras de ordem. | Foto: Com_Texto

ORGANIZAÇÃO 

Segundo um dos organizadores e principal voz das palavras de ordem durante o ato, Fabrício Paz, o objetivo foi alcançado na tarde do domingo.

 “O objetivo do ato não era a questão quantitativa, nós estamos no meio de uma pandemia, as pessoas precisam ficar em casa, a questão do ato era a gente ter garantido a representatividade, principalmente da população negra e das mulheres. Então foi um sucesso para nós, e terminou pacífico como  queríamos”, disse o integrante da Unidade Popular. 

No decorrer dos protestos era possível ver equipes disponibilizando álcool para a higienização dos participantes. Como medidas de proteção também foram definidos espaços de distanciamento entre as pessoas, com indicativos de filas a serem seguidas. 

“Conseguimos seguir todo o ato com as orientações sanitárias como distanciamento, a galera que veio ,em sua maioria, trouxe álcool em gel. A gente realmente conseguiu andar tranquilamente cumprindo no mínimo um metro de distanciamento”, afirmou Graziele Tacanã, participante da organização do ato e integrante do Movimento Nós do Renascer. 

Mesmo que em alguns momentos fosse possível identificar deslizes na prevenção do contágio, como pessoas muito próximas ou o mau uso das máscaras, constantemente a organização retomava as orientações das medidas de prevenção. 

Para Graziele Tacanã, o ato em meio à pandemia Covid-19 é uma resposta às atuações do governo em enfrentamento a situação de calamidade pública. “Esse ato foi construído em sua suma por mulheres e a gente deu a resposta nas ruas. Hoje a gente precisou sair de casa, porque esse governo genocida está acabando com a população, não dando a possibilidade de manter uma quarentena digna”, salientou a organizadora. 

“Essa semana cresceu muito o número de infectados aqui na cidade, então o questionamento não é direcionado apenas ao presidente Bolsonaro, mas também ao prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro, assim como ao governador do estado, Mauro Mendes. É preciso garantir o mínimo de assistência ao povo”, ressaltou Graziele Tacanã.