Com oito candidatas na disputa, o número é maior do que o visto nas Eleições Gerais de 2018 quando o estado registrou apenas uma candidatura.

Decididas a ocupar os espaços de participação política para transformar a realidade dos seus municípios, oito candidatas travestis e transsexuais disputam a escolha do eleitorado mato-grossense durante as Eleições Municipais de 2020. Residentes de cidades como Paranatinga, Rondonópolis, Nobres, Diamantino, Peixoto de Azevedo, Campo Novo do Parecis e Mirassol D’Oeste, cada uma delas carrega em seus projetos de governo lutas que passam pelo campo da educação, lazer e cidadania. Rompendo os obstáculos presentes em um dos estados mais LGBTfóbicos do país, o que se vê na fala de cada uma das candidatas é o interesse em ir além da representatividade. 

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Mato Grosso, o número de solicitações para utilização do nome social no cadastro eleitoral passou de apenas um em 2018, para quatro em 2020. Ainda de acordo com o levantamento, quando analisamos o perfil do eleitorado mato-grossense, contamos com 205 solicitações de nome social no Título de Eleitor. Este aumento quantificado pelo TSE a partir das Eleições Gerais de 2018, deve-se a portaria conjunta nº 1, de 17 de abril de 2018, que regulamenta a inserção do nome social no cadastro eleitoral.

Com a portaria do TSE fica assegurado o direto de pessoas trans exercerem sua participação democrática livre de possíveis constrangimentos. | Foto: Divulgação

Apesar do crescimento no número de registros, o contingente ainda é consideravelmente baixo quando observamos o total de candidaturas no estado, que somam mais de 12 mil. Em um cenário onde Mato Grosso figura a segunda posição no ranking de assassinatos de pessoas trans por 100 mil habitantes, como aponta o Dossiê dos Assassinatos e da violência contra pessoas Trans em 2019, organizado pela Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (Antra), a presença destas mulheres dentro dos partidos exerce pressão por políticas mais diversas e inclusivas. 

A LUTA POR UM CONSELHO MUNICIPAL LGBT

“Se eu ficar dentro de casa não vou conseguir ajudar as pessoas, e isso me motivou a concorrer novamente nas Eleições”, conta Adriana Liário, candidata a vereadora pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B), em Rondonópolis (216 km de Cuiabá). Chegando à sua segunda candidatura, a ativista também concorreu nas Eleições Gerais de 2018, se lançando como um nome para ocupar uma cadeira como Deputada Estadual, pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). 

Com um histórico de luta pelos direitos das mulheres trans e travestis, Adriana coloca em sua base política a necessidade de construção do Conselho Municipal LGBT, que segundo ela, formaria uma aproximação entre o poder público e as pautas de sua comunidade. “Estamos falando de uma das seis cidades mais violentas do país, então esse Conselho nos ajudaria a dar mais qualidade de vida para essa população que está sendo esmagada diuturnamente”, disse a candidata. 

Questionada sobre as mudanças de 2018 para 2020, Liário lembrou do momento difícil que enfrentou no fim da primeira campanha, após o assassinato de sua amiga, Victória Landeiro. “Quando isso aconteceu me marcou muito, foi um choque. Nessa época acabei me afastando da política, me dediquei a cuidar das meninas que ficam na rua, mas vendo que essa questão dos assassinatos estão aumentando cada vez mais,  resolvi fazer alguma coisa para modificar a realidade aqui do município onde eu vivo”, concluiu. 

Compondo uma candidatura próxima de Adriana, outra candidata que também disputa a preferência dos eleitores de Rondonópolis é Jô de Ogum. Com a primeira candidatura oficializada, Jô relembra da sua desistência forçada durante as Eleições Municipais de 2016, quanto teve o direito ao reconhecimento de seu nome negado pelo presidente de sua antiga base política, o Partido Republicano Progressista (PRP). “Quando isso aconteceu pensei ‘não vou mexer com política novamente’. Depois da força que recebi de algumas pessoas, decidi que só sairia candidata se meu nome saísse assim, como Jô de Ogum”, afirmou. 

Atualmente a candidata se mobiliza dentro do Partido dos Trabalhadores (PT), e revela que apesar do preconceito contra sua existência e manifestação de fé, segue acreditando na sua força de mobilização, “do jeito que o preconceito vem, faço ele voltar com essas pessoas preconceituosas. Nada fica comigo”, encerrou.

O DIÁLOGO COMO UMA SAÍDA POSSÍVEL

Nascida em Erechim, no Rio Grande do Sul, e criada no interior de Mato Grosso desde os oito meses de idade, Lorrayne Bettega é um dos nomes que concorre a uma vaga na Câmara de Vereadores de Paranatinga (338 km de Cuiabá). Filiada ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), a candidata se diz preparada para ocupar o espaço de representação e vê o diálogo como uma ferramenta de transformação. “Tem muitas coisas que poderiam ser feitas com força de vontade por parte dos nossos representantes. Falta diálogo para construir melhorias para nossa cidade”, afirmou.

Cotada para entrar no mundo da política partidária em outras três oportunidades, Lorrayne diz que só agora se sente preparada para o desafio. “Fui convidada três vezes para me lançar como candidata, mas nunca aceitei. Hoje com 40 anos me sinto mais madura e preparada, então decidi aceitar”, disse. 

Durante o anúncio de sua candidatura nas redes sociais, Bettega relatou que passou por muitos obstáculos desde a infância, e quando questionada sobre quais eram estes problemas enfrentados, a transfobia logo veio para o debate. 

“Quando falo que enfrentei barreiras, quero dizer que não foi fácil para mim passar pela transição em uma cidade do interior há 25 anos atrás. As pessoas me condenavam, tiveram algumas que tentaram me bater com cinto, mas sempre tirei isso de letra. Com o tempo levantei a cabeça e busquei frequentar os melhores lugares sem abaixar a cabeça pra ninguém”, afirmou. 

Tendo como bandeira a “empatia” e o “amor ao próximo”, a candidata segue com sua campanha no município até o dia 15 de novembro, data do primeiro turno das Eleições Municipais de 2020. “Nós somos iguais a todas, queremos igualdade. Quero um país melhor, com políticos que pensem na população, e para isso precisamos de pessoas com mais empatia, amor ao próximo e bondade”, concluiu. 

MAIS ESPORTE E MAIS EDUCAÇÃO

“A coragem para se candidatar vem da insatisfação de observar que o município pode muito mais do que se vê atualmente”, conta a Professora Andressa Lavínia, candidata a vereadora de Diamantino (182 km de Cuiabá). Também filiada ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), Andressa reivindica investimento integral na educação municipal e maior atenção na geração de empregos. 

Para a candidata, é preciso fortalecer o contato com as empresas que ainda não estão inseridas no município visando incentivar a geração de emprego e melhorar os indicadores de desenvolvimento. “Precisamos de parceiros que acreditem no nosso município e possam somar com a gente na geração de empregos, assim podemos construir projetos com jovens aprendizes”, afirmou. 

Já na área da educação, a busca pelo investimento integral dos recursos destinados aos projetos deste campo é a bandeira principal de Andressa. “A minha demanda até o último segundo de gestão é que os recursos destinados para a área da educação, sejam aplicados 100% nesta área. Não podemos deixar esse recurso ser desviado para outras Secretarias. Se o recurso chegar completo, que ele seja levado por completo para as escolas e principalmente para os Centros Educacionais da zona rural, pois é esse campo que precisa de uma dedicação especial”, disse. 

Com duas escolas localizadas na zona rural, a Professora Andressa conta que o cuidado com o conforto dos professores que se deslocam até estas escolas é fundamental. “Precisamos de um olhar mais carinhoso com estas escolas, sabemos como é difícil para os profissionais da educação que precisam se deslocar da cidade para ir até estes centros educacionais, e é necessário oferecer conforto para essas pessoas”, concluiu.

DIVERSIDADE NAS URNAS

Em diferentes regiões do estado outras candidatas também estão se mobilizando enquanto nomes possíveis, como é o caso de Celinha Martins (Celinha do Salão), candidata pelo Partido Progressista (PP), em Nobres; Dennise Bolt, candidata pelo Partido Liberal (PL), em Peixoto de Azevedo; Valkiria Rocha Brandão, candidata pelo Democratas (DEM), em Campo Novo do Parecis; Rayssa Costa, candidata pelo Partido Republicano da Ordem Social (PROS), em Mirassol D’Oeste. 

Cada uma destas candidaturas possuem um perfil detalhado na plataforma DivulgaCand, organizada pelo TSE, lá o eleitor pode conferir informações como: partido político, declaração de bens e outros dados que podem colaborar na hora da escolha. Para conhecer a plataforma, clique aqui

O primeiro turno das Eleições Municipais de 2020 acontece no dia 15 de novembro, com horários especiais por conta das medidas de prevenção ao novo coronavírus. Já o segundo turno acontece no dia 29 de novembro. 

*Colaborou: Beatriz Passos