• Post Category:Selo Itan

Constantemente, nós pessoas negras em diáspora, nos deparamos com a ausência de nós mesmas, há momentos em que o espelho parece não nos reconhecer, absolutamente nada parece dar conta da composição dos aspectos singulares da nossa existência, e não, isso não se trata de excesso de individualidade ou algo assim.

Por muito tempo, eu busquei e tateei no escuro as referências que vieram a me constituir, que falassem um pouco daquilo que sinto ou que de algum modo referenciassem o meu modo único de ser e agir no mundo. Veja bem, não é porque essas referências não existiam ou inexistem. Na minha percepção, tudo isso diz respeito ao lugar, em que eu estava e que ainda me encontro, diz respeito a distância existente entre eu e tais referências, eu não as alcançava ou elas não conseguiam atravessar o abismo (socioeconômico e cultural), que estava entre eu e elas.

Abayomi Jamila, criadora do Selo ITAN | Foto: Arquivo Pessoal

Entendendo que todo africano diaspórico no contexto brasileiro conhece na pele a sensação do não pertencimento em qualquer lugar que esteja, territorialmente localizado, o Selo ITAN narra quem eu sou na minha relação com o espaço, com o estado de Mato Grosso, especialmente com a cidade de Rondonópolis, onde eu cresci. Consolida-se num impulso de driblar precipícios.

Nessa acepção, a literatura apresenta-se como instrumento que permite a nossa sobrevivência, fala sobre nossa vontade de viver e torna os nossos sonhos de mudança palpáveis, nos cura, nos humaniza e nos coloca como sujeito.

Nesse sentido, a criação do selo denuncia os silenciamentos experienciados nesse espaço, marca meus desencontros, às vezes em que conversei com as ruas, que briguei com a areia nos olhos, que senti o suor frio nas costas, o mormaço quente na cara vindo da janela do coletivo nos dias quentes de agosto, sublinha a construção dos meus afetos e aponta para as possibilidades de narrativas emancipatórias.

É por isso que o Selo ITAN é insurgente, nasce do desejo de romper os silêncios que foram brutalmente nos imputados, se caracteriza como espaço que luta contra o esquecimento das nossas histórias, interroga o passado – reinterpretando os fatos, apresentando as experiências em comum que temos com a nossa comunidade, relacionadas a nossa dimensão coletiva, tematiza o tempo presente, preservando a memória dos nossos pais e celebrando aos nossos ancestrais. Portanto, de modo vocativo, o selo propõe um convite às pessoas negras que escrevem, que sejamos as vozes do nosso tempo e venhamos a escrever na certeza de estarmos construindo o futuro no presente, juntando nossos remendos costurando a nós mesmos e por consequência remodelando a realidade histórica das coisas.


Abayomi Jamila

Em diáspora, escrevivendo, mestranda em Educação e graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Criadora do SLAM Circuito Marginal e do ITAN – Selo Literário em Mato Grosso.