Escritor e estudante de Letras Português e Literatura na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Wandeir ou Afroliterato é o primeiro entrevistado de uma série de publicações sobre as vivências da comunidade LGBT na capital mato-grossense. As entrevistas têm o intuito de apresentar um pouco mais das múltiplas percepções e identidades que integram a comunidade.

Atualmente, Wandeir atua como escritor amador, aprendendo mais com a escrita a partir das suas próprias vivências, com publicações em suas redes sociais (@AfroLiterato). Confira a seguir a entrevista que o Com_Texto realizou com ele e conheça mais sobre suas produções:

CT: Gostaria de começar a entrevista sobre como você encontrou a escrita? Quando começou a escrever?

AL: Eu conheci a escrita a partir do RPG, lá em 2012, narrando um personagem criado por mim. Desde então, me apaixonei pela escrita narrativa, contar e criar histórias se tornou meu forte, sempre criando e postando essas histórias em sites de escritores.

Foi também quando comecei a escrever que comecei a ler, lia histórias e mais histórias e foi nesse momento que me questionei do por quê não havia protagonistas negros como eu, e muito menos gay. Minhas histórias passaram a tentar refletir essas vivências, criando personagens e personas para fazerem jus às minhas vivências como gay.

Foi também da convivência com a escrita que pude ver meus erros e falhas, mas também pude ver o quanto o mundo em que eu vivo é cheio de falhas. A partir dessas falhas que comecei a escrever poesia, pois ela permite expressar mais que histórias, e sim expressar nossos sentimentos e angústias presas na garganta. A poesia liberta tudo que em nós é bom e ruim, escrever é colocar tudo que a gente sente no papel e expor ou não para o mundo.

CT: Sobre o que você escreve?

AL: Minha vida inteira é baseada ser LGBT, então minha escrita é sobre ser LGBT.

CT: Enquanto uma pessoa LGBT, quais os seus desafios? A escrita te ajuda a falar ou enfrentar esses desafios?

AL: Acredito que por mais que tivemos avanços, uma das coisas que ainda vejo é a sociedade aceitar muito mais lésbicas, gays e bissexuais. Somos muito diferentes, não adianta ver um como normal e tentar apagar os outros, como é o que acontece com as mulheres e homens trans.

CT: Pensando nas redes de apoio e afetos, quais são as suas referências na comunidade LGBT?

AL: Acho que minhas referências na comunidade é em sua maioria pessoas LGBT negras, porque me reconheço nelas, e nelas me inspiro para minhas escritas. Linn da Quebrada pra mim é um acontecimento, acho que eu defino minha vida e minha escrita antes e depois de Linn da Quebrada, as letras das músicas dela para mim é uma afronta ao conceito enrustido de moralidade, é isso que eu quero para mim, subverter tudo que é dito sobre mim enquanto um homem negro e gay.

CT: Por fim, você poderia compartilhar alguma das suas produções?

AL: Já que estamos falando de mim, vou compartilhar uma poesia minha que fala muito sobre minha estética, que nasce a partir do momento que saio de um período de religiosidade tóxica:

Filho da Noite por AfroDiabo
Era às oito da manhã quando nasceu
lembrava o pai que duas noites atrás pereceu,
Menino pequeno, gorducho e choroso
A mãe não olhava parecia o pai,
Tão igual dengoso.
Quando tinha três olhou no fundo do poço
Não via nada se não esticasse o pescoço
Assim ele quase caiu, mas o pai que morreu
Não ia deixar, o socorreu.
Criança da noite, que nasceu do pecado
como pode um menino tão calmo
Primeiro filho da mãe, já nascer amaldiçoado.
Era o que ele era, um pequeno diabo,
Ainda sem sorte, nasceu escuro o coitado.
Ladino! puxou o diabo do pai no desatino.