Texto: Beatriz Passos | Imagem: Reprodução

O cuidado com a saúde e preocupação com o bem estar são assuntos de grande importância para sociedade. Não à toa, o olhar mercadológico já transformou essa inquietação é uma boa estratégia de negócio. Em contrapartida, existe uma parcela da população que não consegue ter acesso aos serviços mais básicos de saúde. É o caso de pessoas trans, que seguem resistindo a uma realidade que as impedem de serem quem são, seja quando não reconhecem o seu nome social, sua identificação de gênero, como também, quando anulam suas particularidades ao buscarem por atendimento médico.

Diante de campanhas como “Outubro Rosa”, que se propõe a conscientizar mulheres sobre o câncer de mama, e “Novembro Azul”, quando chega o momento de abordar os homens sobre o câncer de próstata, não é frequente questionar em quais espaços ficam aqueles que carregam a bandeira de cores rosa, azul e branco como símbolo da sua existência.

Essa bandeira tricolor é marca da comunidade trans, e representa um grupo que busca por direitos básicos na condição de transgêneros, travestis e transexuais. Pertencentes a comunidade LGBTQI+, as pessoas trans encaram cotidianamente uma série de violências.

Assim, o Dossiê dos assassinatos e da violência contra travestis e transexuais no Brasil em 2018 aponta que “a maior parte da população trans no país vive em condições de miséria e exclusão social, sem acesso à educação, saúde, qualificação profissional, oportunidade de inclusão no mercado de trabalho formal e políticas públicas que considerem suas demandas específicas”.

SITUAÇÃO DE RISCO

Para o membro da Organização Trans de Identidades Masculinas (Otima) de Mato Grosso, Rodolfo Rodrigues, “as pessoas trans precisam muito se preocupar com a saúde, não só quando optam pela terapia hormonal, mas também como uma maneira de prevenção a riscos”.

A afirmação de Rodolfo está relacionada aos dados divulgados pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), os quais revelam que 90% das pessoas trans atuam na prostituição, para ele, nessas situações “há uma demanda relacionada à educação sexual, passando por métodos preventivos e conscientização sobre Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST)”.

A terapia hormonal é um dos motivos que obrigam o paciente a ter uma rotina de consulta médica regular. Pois, trata-se de uma constante manipulação do corpo por meio de hormônios, a fim de determinadas alterações relacionadas à aparência física. Rodolfo, que optou por esse procedimento relata que “não existe como passar pelo processo de hormonização sem cuidar da saúde, uma vez que possui efeitos colaterais e os hormônios podem sobrecarregar o fígado”.

Nessa caminhada, ele procurou pelo serviço gratuito oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).E sua experiência não entrou nos números referentes a exceções, ele conta que a maioria dos profissionais não tinha disposição para atendê-lo. Embora, certa vez, tenha encontrado uma endocrinologista que demonstrou ter preparo e interesse no seu caso.

“Durante alguns atendimentos os profissionais não sabiam lidar com as questões que eram levadas. Felizmente encontrei uma endocrinologista, com quem passei a realizar consultas, que me atendeu com profissionalismo”, destaca Rodolfo.

O membro da Otima diz também que como estratégia de amenização, os demais participantes da organização, que nasceu como um grupo de rede social, compartilha dicas de clínicas e especialistas que oferecem atendimento humanizado de qualidade.“Existe um receio de ir até uma unidade (por parte das pessoas trans) e também a desinformação de quais lugares e profissionais procurar, por isso estamos sempre mandando no grupo.”

A experiência da Graduanda em Ciências Sociais na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e representante de Estudantes Negras e Negros no Conselho de Política de Ações Afirmativas, Lupita Amorim soma nos casos de despreparo dos profissionais. Certa vez em meio à consulta com uma psiquiatra, ao dividir suas questões, Lupita teve sua realidade minimizada e retirada do contexto.

“Teve uma vez que ao longo da sessão, a médica estava comparando nossos ‘problemas’, dizendo que também sofria com o corpo. Eu respondi dizendo compreender, porém salientando que no meu caso tratava-se de disforia, por não me sentir confortável com as características físicas do meu corpo e querer adequá-las para que eu me sinta confortável com ele”, reforça Lupita.

Segundo Lupita Amorim é necessário o incentivo a formação voltada para as demandas da população trans no currículo de profissionais da saúde. Além de “ser necessário em diferentes campos profissionais. Todas as profissões precisam aprender a lidar com pessoas trans que buscarem serviços médicos, sejam públicos ou privados.”, completa a estudante.

Ela relata que também já procurou atendimento médico em Unidades de Pronto Atendimento (Upa). Revelando que muitas vezes se sentiu impedida, por saber como funcionaria a relação com os profissionais.

“Minha técnica era esperar um dia em que eu me sentisse mais forte para ir até ao hospital e poder marcar uma consulta, torcendo para que no dia que eu tivesse que ir fazer a consulta estivesse bem o suficiente para aguentar a opressão”, conclui.

O QUE DIZEM AS PESQUISAS

De acordo com as pesquisas realizadas com mulheres trans e travestis pelo Magnor Ido Muller e Daniela Riva Knauth, com publicação no Cadernos EBAPE.BR Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas em 2008, revelam que “situação de discriminação relaciona-se à recepção nos serviços. Quando chegam e se dirigem à recepção pedem para serem chamadas pelo nome feminino, com o qual se identificam. Contudo, esse pedido parece não ser atendido, e na hora da consulta, retumba pela sala, diante de olhares curiosos e discriminatórios e o nome que está impresso no documento de identidade”.

No momento em que Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), junto com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) direcionaram seus estudos para essa população, em uma pesquisa com 626 pessoas com idade entre 18 e 64 anos, denunciaram que 58,7% dos participantes questionados relataram ter sido vítimas de discriminação durante um atendimento médico, de forma que procuram o acompanhamento médico em última circunstância.

Já 43,2% dos entrevistados disserem não buscar serviços de saúde, devido sua identidade de gênero, por medo de possíveis violências. De acordo com a pesquisa 17,8% dos entrevistados responderam não ter vivenciado discriminação em qualquer consulta.

Entre tantas possibilidades, os dados revelam que essa falta de acesso à saúde não é uma dificuldade comum, ou pelo menos não é a mesma que pessoas inseridas na lógica cisgênera-heteronormativa são sujeitadas.

Essa lógica considera apenas um modelo de ser como normal, ou seja, indica a concordância entre o gênero e o sexo de um indivíduo como natural. De forma que desconsidera a realidade de pessoas transexuais, as classificando como pessoas que fogem às regras biológicas pré-estabelecidas, portanto alheias ao padrão normativo e condenadas a inferioridade.

Para Lupita, “Campanhas como ‘Outubro Rosa’ e ‘Novembro Azul’ precisam ser pensadas também a partir de uma perspectiva da população trans. Pois, os profissionais devem desenvolver um atendimento que consiga fazer com que essas pessoas ao buscarem uma consulta sejam tratadas com dignidade e respeito, compreendendo que é uma especificidade em relação aos corpos que são tratados por vezes como ‘aberrações’ pelas pessoas e médicos que se recusam prestar atendimento.”

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