Texto: Marcos Salesse | Imagens: Marcos Salesse

Ecoando versos, o Slam do Capim Xeroso coloca Cuiabá na rota global dos movimentos de poesia falada e dá palco para artistas independentes.

No coração da cidade, onde do limbo se faz arte, jovens se reúnem em busca de uma libertação que só a poesia pode trazer. Entre um olhar atento e uma audição aguçada ao que o outro tem a dizer, se escuta um grito que ecoa por toda Praça Senhor dos Passos, localizada entre a Avenida Historiador Rubens de Mendonça e o Beco do Candeeiro, em Cuiabá. “Batalha de poesia tá causando Alvoroço: É o Slam do Capim Xeroso”.

Mas antes de entender de onde vem essa batalha que anda causando alvoroço, é preciso olhar para trás, mais precisamente para o início da década de 1980, na cidade de Chicago, Estados Unidos da América, onde o poeta Mark Kelly Smith começou o movimento intitulado ‘Poetry Slam’, em tradução livre: “poesia falada”.

Está ação ganhou forma em território norte-americano, mas logo se espalhou pelo mundo. Com uma proposta simples e ao mesmo tempo ousada, as batalhas de Slam se organizam como espaços democráticos onde qualquer pessoa pode expor sua poética em versos, basta ter a coragem de erguer o microfone e soltar a voz.

Cruzando aproximadamente 8403 km, distância entre Chicago e São Paulo, este modelo de expor poesia chegou no Brasil pela voz de Roberta Estrela D’Alva, considerada a pioneira nas batalhas de Slam em terras brasileiras. Atriz por formação, Roberta idealizou o Zona Autônoma da Palavra (ZAP), primeira competição registrada oficialmente no país, em 2008.

Seguindo as mesmas dinâmicas das batalhas existentes no resto do mundo, onde cada participante deve apresentar uma poesia original, com tempo máximo de três minutos, sem o apoio de nenhuma base musical, Cuiabá também entrou na rota poética, com a Batalha de Slam do Capim Xeroso.

NA CURVA DO CAPIM, NASCE O SLAM CUIABANO

Quem descia pela Rua do Meio, próximo a tradicional Praça da Mandioca, no último sábado do mês, logo percebia um movimento diferente. Naquele lugar, conhecido como a ‘curva do capim xeroso’, pessoas de diferentes idades se reuniam para apresentar suas poesias e cravar de vez as raízes do que hoje é a maior batalha de Slam de Mato Grosso.

Com estes primeiros passos dados ainda em 2017, pelo poeta fluminense Guilherme Raeder, a batalha ganhou forma e se firmou por três anos na região da Praça. Nesse tempo, poetas e Mc’s deixaram naquele lugar suas poesias que ecoaram por diversas regiões do país, como é o caso da ganhadora de umas das primeiras edições, Pacha Ana.

Pacha, como é carinhosamente conhecida, passou pelo Slam do Capim e se lançou como uma promessa mato-grossense, representando o estado no campeonato brasileiro de poesia falada, o Slam BR. Assim como ela, outras poetas e amantes da poesia foram se aproximando do evento, deixando não só um pouco da sua arte, como também da sua dedicação.

Este é o caso da cineasta, atriz e produtora cultural Ana Carolina de Mello, que assume hoje a linha de frente das batalhas, dando novos rumos para essa história, que começou na ‘curva do capim’ e segue movimentando o centro, agora na praça que denuncia chacinas e anuncia o Beco.

Para a produtora, a iniciativa é mais que apenas uma batalha, se configura também como uma retomada de espaço. “O Slam surge de uma iniciativa autônoma como forma de ocupação, intercâmbio cultural e resistência. Ele se configura como uma retomada do espaço público por meio da intervenção artística”, afirma.

Mesmo com a mudança de cenário, a batalha manteve sua essência e reúne diversas pessoas no último sábado do mês.

Como um ritual, pontualmente às 19h, a região do Beco começa a ganhar um ritmo diferente, chega Ana com o cartaz símbolo da batalha, chega também outros artistas e colaboradores expondo quadros, desenhos, livros independentes e por fim se escuta o grito que causa alvoroço, esse é o sinal de que os poetas estão preparados para entrar no fluxo da rima e fazer a batalha começar.

Entre um round e outro, os poetas com a maior nota do juri popular vão tendo seus nomes anotados no papel utilizado para organizar a edicação da batalha. |Foto: Marcos Salesse

QUEM MOVE O SLAM, MOVE A POESIA

“Eu sinto que consigo escrever com o papel e a tinta o que eles escrevem com as palavras”, disse a artista plástica e estudante de Letras, Carla Renck, enquanto observava as primeiras apresentações da noite.

Em sua segunda participação, a estudante já acumula uma experiência artística que atravessa suas obras. Para ela, a experiência vai muito além do intercâmbio cultural, partindo também para uma afetação direta.

“O Slam traz essa questão de transformar vidas. Então eu acredito que se a gente levar esses movimentos de rua para os espaços da rua, a gente consegue transformar essas realidades”, comenta a artista.

Acompanhando a batalha já no novo espaço, a jovem relata perceber uma interação cada vez mais intensa entre a batalha e as pessoas que fazem daquele espaço, sua casa.

Essa é também a percepção de Bruna Ferreira, conhecida como ‘Sol’, que antes de iniciar suas apresentações, sempre pede licença para fazer daquele espaço o ponto de partida da sua poesia.

“Existe essa interação entre a gente que vai para lá, e tem coisas para dizer alí, e essa demanda do Beco para a galera que participa, e isso é muito maravilhoso. No final de cada edição eu tenho a consciência de que eu vou para casa, mas que estou saindo da casa de alguém, e estou levando muita coisa comigo”, compartilha a performer.

Sendo um dos destaques das últimas edições, expondo poesias que passeiam por universos como a violência policial, a importância da educação e as vivências de uma poeta, Sol também entende que colaborar para a existência do Slam, é também um ato político.

“A gente não só coloca a poesia na pista em forma de performance, fazemos desse movimento um espaço de atuação política. Então alí, durante as horas que o evento acontece, eu estou batalhando com os meus colegas, mas também sou parceira, estamos todos no mesmo lado. A gente se escuta e também batalha”, conta Bruna.

A BATALHA VIROU FILME

De olho na arte que vem da rua, cinco jovens cineastas/comunicadores, Ana Carolina De Mello, Dennys Freire, João Pedro Regis, Jorge Luiz Queiroz e Octávio Gama viram na sétima arte a possibilidade de registrar em forma de documentário, os movimentos que dão forma a batalha.

Em uma produção coletiva do Salve Filmes, núcleo de produção e estudo audiovisual independente, o documentário “Slam: Rua e Resistência”, revela as nuances do Slam, expandindo o debate sobre a retomada do que é considerado espaço público.

“O cinema pode se conectar com o Slam se existir cineastas que tenham um olhar para a rua. Então o documentário tem essa relação direta entre o cineasta e os eventos que acontecem no país, no território em que ele está inserido”, conta Ana.

Segundo a realizadora, o filme é também uma disputa de narrativa que sobre a batalha e o espaço, levando para as telas um novo ponto de vista sobre as intervenções de rua que acontecem no centro de Cuiabá.

“O cinema veio para registrar essa realidade, para trazer os personagens da nossa realidade para as telas. Então existe uma disputa de discursos aí também, frente a tudo que está sendo mostrado. É uma forma de resistência”, conclui a cineasta.

Gravado quando a batalha ainda acontecia na região da Praça da Mandioca, o documentário já circulou em algumas escolas municipais de Cuiabá, como proposta de debate entre os alunos. Assim como grande parte das produções do núcleo, o filme também está disponível gratuitamente no canal do YouTube do Salve Filmes. Para assistir, basta clicar aqui.

Assista abaixo o complemento audiovisual da reportagem: