Texto: Marcos Salesse | Imagens: Reprodução

Uma conversa, um bate-papo, uma troca de ideias que transporta quem escuta para dentro de um tema, uma ideia ou até mesmo uma paixão. Estas são algumas das qualidades que fazem dos podcasts um dos maiores fenômenos da atualidade. Propondo histórias e pensamentos variados, a praticidade dos programas também chama a atenção dos ouvintes, que por vezes, acompanham enquanto executam outras atividades.

No Brasil, segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), aproximadamente 50 milhões de internautas já escutaram um programa de áudio, o equivalente a 40% de todo o público que acessa a internet no país.

Se consolidando como uma alternativa sugestiva para quem busca se aventurar em novas possibilidades de acesso à informação, os podcasts já estão imersos na rotina de muitos brasileiros.

Em Cuiabá a realidade não é diferente, mesmo com uma quantidade ainda imprecisa de ouvintes, o crescente número de programas produzidos em território cuiabano reforçam o ganho constante de popularidade deste formato na capital mato-grossense.

Seja no esporte, nas questões universitárias ou até mesmo sociais, diversas produções genuinamente cuiabanas já estão com seus nomes estampados nas principais plataformas de streaming, meios digitais que hospedam grande parte dos podcasts.

MAS É CLARO QUE TEM!

Um dos exemplos dessa ‘tomada de espaço’ se concretiza no projeto “Comunicast”, idealizado pelo professor e doutor Luãn Chagas, que propõe uma nova forma de pensar os programas dentro do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Arte de apresentação do Comunicat, projeto de extensão da UFMT.

Entre oficinas, palestras, e produções práticas, o projeto já colocou no ar dois podcasts: o “Ditando Regras”, que foca no protagonismo feminino na hora de falar sobre os esportes, e o “De Lá Pra Cá”, criado para ecoar as narrativas e histórias vividas pela comunidade acadêmica da UFMT.

Para aluna de Publicidade e Propaganda, Emile Botelho, participar do projeto fez crescer sua vontade de conhecer e se aprofundar no universo dos podcasts, permitindo ainda uma possibilidade de aprender novas técnicas que envolvem o processo de produção deste formato.

“Eu acho muito importante, porque a gente aprende muita coisa. Aqui eu faço muita coisa diferente do que se espera que eu faça dentro do curso. Sempre aprendo com as meninas e com o professor. E por ser algo novo, é muito legal ter um projeto sobre isso, e no caso do ‘Ditando Regras’ ser um projeto feito por mulheres”, disse Emile.

Já para Andrelina Braz, estudante de Jornalismo e integrante do “Comunicast”, viver a experiência do projeto abriu espaço para conhecer ainda mais a Universidade, uma vez que, atuando no programa “De Lá Pra Cá” a jovem circula pelos mais diversos cursos e projetos de extensão para colher entrevistas, e assim construir alguns dos blocos presentes nos episódios.

“Eu fico mais com a parte de entrevistas, e é muito bacana porque a gente tem a oportunidade de ir em outros cursos e conhecer outros projetos de extensão, ver o que eles fazem e produzem. Isso tira a gente de uma bolha”, afirmou.

Como ponte entre a Universidade e a comunidade externa, o “Comunicast” carrega em sua proposta a possibilidade de reunir diversas vozes para recontar histórias em outras perspectivas. Seja nos esportes ou nas vivências universitárias, o projeto também apresenta um posicionamento político.

“A gente vive em um momento delicado, onde as pessoas acham que a Universidade não produz nada. Só que não é bem assim, fazendo o podcast a gente percebe o quanto os projetos daqui são importantes para a sociedade. Então o ‘De Lá Pra Cá’ tem esse intuito, mostrar para as pessoas de fora o que está sendo produzido aqui dentro”, concluiu Andrelina.

No último mês a iniciativa foi escolhida para figurar a lista dos finalistas do 1° Prêmio de Jornalismo-Mosca, realizado pela agência de notícias Livre.jor. Um dos destaques aprontados pela agência durante o anúncio dos finalistas, foi a qualidade técnica entregue em todos os episódios já publicados.

Para escutar o “De Lá Pra Cá” clique aqui. E para ouvir o “Ditando Regras” clique aqui.

Afinal, ‘Geografia para que(m)?’

Nascido do anseio de professores e estudantes do curso de Geografia da UFMT em levar as discussões para fora dos muros da Universidade, o podcast “Geografia para Que(m)?” também se coloca como uma opção para quem busca se aprofundar em temas que envolvem os estudos geográficos.

Organizado pelo grupo de pesquisa HPGEO — História do Pensamento Geográfico e Epistemologia da Geografia, o programa já conta com dois episódios publicados, com aproximadamente uma hora de duração cada.

Segundo um dos criadores do programa, o aluno Jefferson Emerick, ter um programa neste formato auxilia não só na propagação do que é discutido dentro da UFMT, como também facilita a compreensão do ouvinte em assuntos mais densos.

“As vezes tem um tema que eu não entendo muito, acho muito difícil com textos pesados, mas se ouvisse sobre em um podcast entenderia muito mais. A forma de ouvir é uma maneira muito boa de se aprender. Então no grupo a gente viu o podcast como uma ferramenta”, comenta o estudante.

Grupo de pesquisa HPGEO reunido durante um dos encontros realizados em 2019 | Foto: Arquivo Pessoal

Apesar de não contar com recursos físicos para produzir o material, Jefferson afirma que existe muita cumplicidade entre os integrantes para encontrar a melhor forma de gravar os episódios, seja pelo celular ou pelo computador.

“A gente ainda não tem recursos nenhum, vemos qual o melhor celular que grava, qual o melhor cômodo da faculdade para gravar. Costumamos deixar um notebook, um celular e um gravador gravando, para ver qual fica melhor”, disse.

Os temas que compõe os episódios são tirados dos autores escolhidos pelos próprios alunos com a colaboração da Profa. Dra. Marcia Alves Soares da Silva, coordenadora do HPGEO-UFMT. “São sempre os autores que a gente discute no grupo, estudamos os textos e depois levamos para o podcast”, concluiu Jefferson.

Para escutar o “Geografia para Que(m)?” clique aqui.

“Onde trans fala e cis escuta”

Fruto do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do radialista Valentim Félix, o programa “Escuta Trans” estreou em meados de outubro deste ano com o objetivo de estabelecer um diálogo da população trans com o público cisgênero.

Com três episódios lançados, o programa conta também com a participação do graduando em Biologia, Rodolfo Rodrigues, e do doutorando em Estudos de Cultura Contemporânea, Vicente Tchalian.

Valentim, Vicente e Rodolfo após a gravação do primeiro episódio do programa “Escuta Trans” | Foto: Arquivo Pessoal

“Quando fui escrever o meu projeto de TCC, pensei em fazer um documentário sobre a genitalização dos homens trans. Quando fui comentar sobre o tema com a minha professora de Projeto, ela virou e perguntou ‘o que é um homem trans?’. Foi aí que eu percebi que deveria começar do começo”, conta Valentim.

Partindo desta dificuldade de compreensão encontrada durante o processo de conclusão do curso, quando ainda estava na UFMT, o idealizador do programa percebeu que existia uma grande necessidade de falar sobre termos e conceitos que envolviam a identidade de gênero.

“Eu percebia que as pessoas tinham muita dificuldade de entender os termos e conceitos voltados para a identidade de gênero. Então pensei, ‘como é que eu vou conseguir que essas pessoas me escutem’, minha vontade era de pegar um megafone e sair gritando por aí, e eu de fato tinha como fazer isso, só que pelo rádio”, comentou.

Mesmo com a formatação de um programa de rádio, o projeto foi desenvolvido anos após a entrega do TCC, dessa vez na forma de um podcast. Ainda que não utilize um megafone, Valentim conduz diversos assuntos do cotidiano de pessoas trans no Brasil e no mundo.

“A ideia é ‘onde trans fala e cis escuta’ porque a gente quer ser ouvido e não ser interrompido ou categorizado de alguma forma. No espaço que a gente tem para falar sobre a gente, nos sentimos mais confortáveis”, concluiu.

Para ouvir os episódio do programa “Escuta Trans” clique aqui.

Quer mais?

Durante as entrevistas realizadas para construir esta reportagem, pedimos para todos os entrevistados sugerirem alguns dos seus programas favoritos. Acompanhe as sugestões e aproveite para conhecer ainda mais o universo dos podcasts: