O Com_Texto conversou com a integrante do Coletivo Audiovisual Negro Quariterê, Luiza Raquel, sobre alguns dos cenários do cinema negro, a atuação no Coletivo e o projeto mais recente construído por eles, a V Mostra de Cinema Negro de Mato Grosso. Nesta edição, a mostra traz o debate sobre condições de vidas negras entre sobrevivência e bem viver, além de promover um evento totalmente online em tempos de isolamento social. 

Com inscrições abertas, A V Mostra será realizada no período de 06 a 13 de setembro de 2020 por meio do site oficial do coletivo organizador do evento, o www.quaritere.com.br. O período de inscrição segue até o dia 30 de julho, exclusivamente online.

CT: O Coletivo Audiovisual Negro Quariterê vem traçando uma caminhada de autoafirmação de produções negras, você poderia compartilhar um pouco da trajetória do coletivo? 

LR: O Coletivo Quariterê surge em 2017, a partir de um momento bastante importante em 2016  para o cinema negro, que a gente considera um marco, nesse período a gente vivenciou  a produção da primeira Mostra de Cinema Negro, organizada pela Secretaria de Cultura de Mato Grosso, e nesse momento quando começaram a anunciar a programação do 20 de Novembro, considerado o dia da consciência negra, começou a surgir a divulgação da Mostra e a gente se organizou para reivindicar alguns posicionamentos, porque a Mostra tinha títulos de caráter preconceituoso, racista, com tom debochado. Então resolvemos fazer um manifesto, nos reunimos com quem estava produzindo e questionamos vários apontamentos. Então, a gente começou a se organizar e mostrar que existiam pessoas negras e produções negras no audiovisual e decidimos nos organizar em 2016/2017. 

CT: Sobre a Mostra de Cinema Negro, quais os desafios e a proposta de realizar esse ano em meio a pandemia Covid-19? 

LR:Esse ano será 100% online. A gente pensou até se iríamos ou não realizar essa edição, mas não se pode deixar um projeto tão interessante e importante sofrer um apagamento como esse. E nesse desafio temos uma pessoa muito importante com a gente, o Fabiano, que nos ajudou na produção do site com toda diagramação, e com todo o grupo muito interessado em realizar, conseguimos efetuar essa etapa importante de toda a burocracia digital. 

Com essa parte concluída, começamos a as inscrições e a pensar na programação que será toda online, desde e as exibições até as conversas com os convidados. 

CT: Esse ano a Mostra fala sobre resiliência e projeções de futuro. Como surgiu a proposta de mostrar a importância de se pensar em futuro, ainda mais no contexto de pandemia que se multiplica as formas de violência sobretudo para a população negra?  

LR: Esse ano a gente escolheu falar sobre sobrevivência, mas também sobre o Bem Viver. Nesse contexto, precisamos sim sobreviver, mas é preciso ter acesso a qualidade de vida, acesso a saúde e a qualidade de vida também é lazer. É sobre a sobrevivência ser uma urgência, mas também ser possível enxergar um futuro. Porque a gente está muito acostumado a lidar com negros em situação de vulnerabilidade, sem qualidade de vida e falar somente disso. E o coletivo quer falar também de um negro no futuro, em lugares de poder. Por isso que o  acesso ao audiovisual é muito importante, por trazer a perspectiva que é fundamental para os negros, de que é possível um futuro cada vez melhor. 

CT: Como as pessoas fazem para se inscrever de Mato Grosso para realizar inscrições para participar da Mostra? Serão aceitas produções de todos os estados?

LR:As inscrições são são totalmente online. O coletivo disponibilizou a plataforma do www.quaritere.com.br para inscrições. E podem participar produções de todo o Brasil, desde que tenham a maioria de pessoas negras em suas produções e que a temática seja sobre relações raciais. Os filmes podem ser de vários estilos e formatos, uma novidade é que videoclipes entraram para o regulamento este ano, e serão aceitos. Então é só ler o regulamento, que tá bem curtinho e bem acessível no site. 

CT:  Trazendo um pouco para a realidade da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que passou a ofertar o curso de Cinema podendo contribuir com a produção do cinema mato-grossense. Como você enxerga a importância de conhecer o cinema negro na formação do cineasta? 

LR: Hoje eu vejo que existem mais alunos negros nos cursos de Cinema e da Comunicação Social em geral, e isso é muito importante. Quando cursei a graduação éramos em 2 alunos que se declararam negros. Acho que esse movimento é muito positivo para o cinema negro. A gente, ano passado teve a participação de estudantes de Cinema e foi muito interessante, porque conseguimos perceber como é que tá sendo a transformação, proporcionando uma troca muito bacana. Eu acho que é muito interessante a oferta do curso de Cinema e vai dar uma repaginada no cenário dos cineastas em Mato Grosso. Além de ser muito positivo tanto do cinema negro quanto dos cinemas de uma forma geral, a gente ter esse curso em uma universidade pública, gratuita e de qualidade. 

Na minha época de faculdade, eu não vi nada sobre cinema negro, e acredito que ainda continue assim, porque eu acho que só vai ter transformações correspondentes às necessidades da sociedade. Mas é importante também para o cinema negro que pessoas estejam ativas mesmo que na academia, e se alguém se interessar em fazer parte do coletivo estamos de portas abertas. 

CT: Para as pessoas que tenham interesse em buscar o coletivo e até mesmo fazer parte dele, o que elas precisam fazer? 

LR: Quem quiser conhecer é só chegar, entrar em contato. Buscamos sempre ampliar a diversidade dos membros e formar cada vez mais pessoas com o coletivo, o trabalho grande, mas sempre fazemos com muita dedicação, amor e coletividade. Nossas redes estão abertas, e sempre respondemos por elas seja Instagram ou Facebook.

Assista o material audiovisual da entrevista, clicando aqui.